Gramsci e Marcuse: os mentores do “novo mundo”
Não vou dissertar aqui sobre a crítica de Gramsci a Croce nem perder tempo em falar de como ele pensa a relação teoria/práxis. Vou direto ao ponto. Para Gramsci a sociedade é constituída de classes. Duas se destacam: a classe dominante, que exerce o poder [i.é., o direito e a justiça] sobre as pessoas, e a classe dirigente [i.é., a intelectualidade], que dirige as mentes. Pois bem, Antonio Gramsci “descobriu” que a classe dirigente pode influenciar e determinar os rumos da classe dominante. Em outras palavras, pode decidir o que é o justo e o direito. Por conseguinte, segundo este pensador, o marxismo deve começar pela criação de uma classe dirigente que, por sua hegemonia, coloque em crise a classe dominante e os seus valores. Isto se dá quando os “militantes” socialistas começam a exercer o seu “ativismo” em todos os setores da sociedade: hospitais, igrejas, escolas, liceus, academias, etc. Ora, aqui entra a obra de outro grande expoente do marxismo cultural do nosso tempo: Herbert Marcuse. Este entende que a sociedade laboriosa sufocou o érōs humano, fazendo com que as pulsões mais originárias da nossa espécie – sexualidade/procriação e agressividade/defesa da prole – ficassem soterradas (“inconsciente”) por um “eu” que se perfaz pela repressão destas mesmas pulsões e pela ignorância do que realmente somos, isto é, meros “funcionários da espécie”. Ora, Marcuse reconhece que o avanço tecnológico criou o “tempo livre”, que fez com que estas pulsões ressurgissem. Entretanto, o “proletariado” não aderiu às “transgressões” das pulsões, porque se rendeu ao trabalho. Desta feita, trabalhavam não mais por necessidade, mas sim pelo simples desejo de produzir e consumir. Assim sendo, o trabalho passou a ser uma força que escraviza os homens, que reprime as suas pulsões e que os aliena por divertimentos fúteis. Doravante, para Marcuse, a função da filosofia passa a ser uma “função libertadora”. Ela deve, pois, livrar os homens da repressão que a “racionalidade tecnocrata” exerce sobre as suas próprias potencialidades. A filosofia deve criar espaços para acolher os “marginalizados”, que são todos aqueles que se recusam a viver segundo os moldes da “moral burguesa”. Em uma palavra, são aqueles que dão vazão às suas pulsões sem nenhum controle. São, por exemplo, os adeptos do “amor livre”. Sendo assim, para Marcuse, não é o proletariado, mas sim os transgressores da “moral repressora” que devem ser recebidos. A síntese entre estes dois pensadores é a seguinte: são os libertinos, licenciosos e anarquistas – ou os que os defendem – que devem ocupar os espaços da classe dirigente, até que a hegemonia desta mesma classe derrube a classe dominante, ocupando, ela própria, o monopólio do poder. Ratificando: não é o proletariado que deve dar ordens, pois este acabou se “enriquecendo”. Os que devem arbitrar são os indecorosos; os que devem ser “libertados” de toda “opressão” e de todo “recato” são os despudorados. De fato, não é verdade que faz algum tempo que estamos sob o poder de depravados? Não é verdade que muitos dos nossos representantes e intelectuais não só praticam, senão que fomentam e buscam "fundamentar" mais e mais a devassidão? Pois bem, a única alternativa para esta espécie de comunismo é uma educação que busque desintoxicar e sanar as pessoas que quiserem reintegrar-se. Esta é a provocação do texto.