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Tomás de Aquino
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Teologia da santidade para leigos II

Da graça de Cristo

Desde a Queda de nossos primeiros pais, não há mais propriamente a graça de Deus, senão a graça de Cristo, isto é, a graça de Deus que nos sara e eleva e que nos vem exclusivamente por meio de Cristo: “Toda a graça concedida ao homem redimido é a graça de Cristo [gratia Christi] e não apenas a graça de Deus [gratia Dei], como aquela que Adão teve antes do pecado.” (Royo Marín. Jesus Cristo e a vida cristã. Trad. Ricardo Harada. Rev. Juliana Amato. São Paulo: Ecclesiae, 2020. p. 61). De tal forma é assim, que até os justos do Antigo Testamento foram salvos pela graça de Cristo, vale dizer, em previsão dos méritos futuros do Salvador: “O que tudo equivale a dizer que todos os homens salvos, os justos, quer do Novo Testamento, quer do Antigo, a própria Maria Santíssima, apóstolos, mártires, santos, receberam graças de salvação, por causa dos merecimentos de Nosso Senhor” (Boulenger. Doutrina Católica. Tomo I: O Dogma — O Símbolo dos Apóstolos. São Caetano do Sul: Santa Cruz — Editora e Livraria, 2021. p. 198). Procedamos com ordem, perguntando-nos primeiramente: como na atual economia da Providência Divina nos chega a graça de Cristo? É preciso nos deter um pouco no mistério da Encarnação. Sem podermos entrar em pormenores que nos levariam muito longe, digamos que a Humanidade do Salvador pode ser considerada de duas maneiras. A primeira, quando se considera nela as suas próprias virtudes, sejam as virtudes naturais decorrentes da sua natureza humana, sejam as virtudes sobrenaturais provenientes da plenitude de graça que Cristo recebeu em razão da graça da união hipostática. A segunda, quando se considera a humanidade do Salvador enquanto instrumento do Verbo, ao qual ela está unida pessoalmente. Para compreendermos este segundo aspecto, importa entendermos o que é uma causa eficiente. A causa eficiente, a rigor, é aquela que produz algo. Ela pode ser moral, como quando conseguimos graças para outrem através dos méritos que podemos obter, da intercessão e da súplica. Mas ela pode ser também física. Isso se dá quando, primeiramente, a causa principal, em razão de sua virtude intrínseca, produz um efeito proporcional à sua virtude, como o pintor que realiza uma pintura. Porém, esta causalidade física pode ser também instrumental, o que ocorre quando a virtude da causa principal produz um efeito superior ao do instrumento do qual ela se vale, por exemplo, o pintor que manipula o pincel. Por fim, esta causalidade física instrumental conhece uma subdivisão. Primeiro, ocorre que a causa principal pode se valer de um instrumento unido a ela para produzir o seu efeito correspondente, por exemplo, a pessoa do escritor que se serve da sua mão para escrever. Em segundo lugar, pode dar-se que a causalidade física instrumental se valha de um instrumento separado para produzir o seu efeito, por exemplo, a caneta que o escritor usa para escrever. A causa principal tem, pois, uma função diretiva e a instrumental uma função executiva na produção do efeito. Pois bem, o Verbo, enquanto Nosso Senhor esteve neste mundo, serviu-se de sua santíssima humanidade, como de instrumento unido, para produzir efeitos sobrenaturais, como a graça, o perdão dos pecados e os milagres. Enquanto Nosso Senhor esteve neste mundo, o contato físico com os infelizes pecadores era direto e imediato. Agora, que a humanidade de Cristo está gloriosa no Céu, o Verbo ainda se vale de sua santíssima humanidade para que esta, por meio de um contato virtual com os homens, produza neles efeitos benfazejos e sobrenaturais. Assim, Ele nos toca quando exercermos um ato de fé viva. Ademais, Cristo (com a natureza humana unida ao Verbo) se vale dos sacramentos, como de instrumentos separados, para produzir a graça santificante em nós. Ratifiquemos, a propósito de seu influxo virtual, que este é em relação a nós, pois humanidade de Cristo, com a sua vontade inflamada de amor pelos homens, continua sendo um instrumento unido ao Verbo. Assim, a causalidade física instrumental fica ou permanece salvaguardada. Seja como for, toda esta ação de Cristo que se prolonga na história, observa acertadamente Royo Marín, dá-se porque “(...) o fim da encarnação não foi terminado com a morte de Cristo, mas continuará até o fim dos séculos na aplicação dos frutos da redenção.” (Royo Marín. Jesus Cristo e a vida cristã. Trad. Ricardo Harada. Rev. Juliana Amato. São Paulo: Ecclesiae, 2020. p. 177). Além disso, é preciso frisar, no que toca especificamente à ação do Verbo por meio da humanidade de Cristo, que ela se estende, de alguma forma, aos desafortunados pecadores de todos os tempos, ao mundo dos homens em seus maiores infortúnios: “Com ela, a ação física de Jesus não se restringe apenas à Eucaristia. Em toda parte, sempre e em relação a todos os tipos de graças, Cristo aparece com sua influência benéfica, enchendo-nos de bênçãos. Não existe uma única alma, um único povo, que não seja fisicamente visitado pelo homem-Deus. É o prolongamento sem fim, através dos séculos, daquele que passou pelo mundo fazendo o bem e curando a todos (At 10, 38), que resume de maneira tão excitante a passagem do Filho de Deus através deste vale de lágrimas e misérias.” (Royo Marín. Teología de la perfeccíon cristiana. 3 ed. Madrid: BAC, 1958. n 21. In: Royo Marín. Jesus Cristo e a vida cristã. Trad. Ricardo Harada. Rev. Juliana Amato. São Paulo: Ecclesiae, 2020. p.177-178). Jesus continua a querer nos tocar nos sacramentos e nos atos de fé viva que fazemos. E como estas ações de Cristo são operações que envolvem a sua natureza humana (causa física instrumental) e a natureza divina do Verbo (causa principal), pode-se dizer com justeza que são ações teândricas e trinitárias, porquanto a natureza divina do Verbo é comum às três pessoas da Santíssima Trindade: “Observe, finalmente, que a ação divina nas operações teândricas não é própria e exclusiva do Verbo, mas comum a toda a Trindade; porque o princípio principal que produz o efeito (princípio quo principal) é apenas a natureza divina, que é comum às três pessoas da Santíssima Trindade.” (Royo Marín. Jesus Cristo e a vida cristã. p.234). Só os corações mui empedernidos não percebem que, nos sacramentos, é Cristo quem nos toca no ministro ordenado. A água do Batismo, por exemplo, é certo que é um instrumento separado, assim como o é a caneta do escritor, mas nem por isso deixamos de dizer que o autor da obra seja a pessoa que a escreveu. O que dizer então da Eucaristia? Pois bem, o fato é que, incorporados a Cristo pelo Batismo, adquirimos a graça santificante, hábito entitativo e não operativo que está doravante na essência da nossa alma. Ora, esta graça habitual com as virtudes infusas, os dons do Espírito Santo e a inabitação trinitária que a acompanham (além das graças atuais que a seguem) vão, mediante os outros sacramentos que as devolvem ou fazem crescer, nos modelando, nos configurando a Cristo, traçando em nós a fisionomia de Cristo, a silhueta do Salvador, que é o Ideal do Pai celeste. Destarte, em gesto de profunda gratidão, façamos como um grande santo dominicano: “São Vicente Ferrer, no aniversário do seu batismo, cantava solenemente a Missa de ação de graças; e se estivesse em Valência, ia até onde o haviam batizado e beijava com fervor a pia batismal em que havia se tornado Filho de Deus e herdeiro da glória.” (Royo Marín. Teologia da Perfeição Cristã. Trad. Dalton Zimmerman et al. Rev. Fabio Florence et al. 4 ed. Anápolis: Magnificat, 2020. p. 403). Cristo é, pois, o autor e o consumador da nossa salvação e santificação.

Da Paixão e Mediação de Cristo

Como diz a Escritura, não há outro nome pelo qual possamos ser salvos exceto o nome de Jesus (At 4, 12). Cristo é o nosso salvador por mérito, satisfação, sacrifício, redenção e eficiência. Dito de outro modo, Cristo é a causa meritória, satisfatória, sacrificial, redentora e eficiente da nossa salvação. Estudemos, pois, a Paixão de Cristo, que é quando se consumou a nossa salvação. Ela foi, sob certo aspecto, uma obra de amor de toda a Trindade: o Pai enviou o seu Filho, em quem põe todo o seu agrado; este morreu por nós, por ardente zelo e caridade, caridade esta que lhe foi inspirada pelo Espírito Santo. Comecemos pelo mérito. Por mérito entendemos o valor de uma obra enquanto a torna digna de recompensa. Em outras palavras, o mérito é o direito que uma pessoa adquire para que a outra a recompense por um serviço que lhe prestou. Assim o trabalhador, por seu trabalho, é digno de receber um justo salário do seu empregador. Existem, a rigor, dois tipos de mérito: o de condigno, que se funda em razões de justiça (como no caso do trabalhador), e o de côngruo, que não se funda nem na pura justiça, nem na pura gratuidade, senão na conveniência por parte da obra e em certa liberalidade por parte do remunerador. Por exemplo, a pessoa que nos faz um favor torna-se credora da nossa gratidão. O mérito de condigno se subdivide em de estrita justiça e em de justiça proporcional. Quanto ao primeiro, exige-se igualdade rigorosa entre o que se oferece e a recompensa. Na ordem sobrenatural, em virtude da união hipostática que acaba com a distância infinita entre Deus e o homem, esta estrita justiça só pôde ser merecida por Jesus Cristo, o Homem-Deus. O mérito de justiça proporcional, como o próprio nome indica, dá-se quando há uma igualdade de proporção entre o ato meritório e a sua recompensa. Na ordem sobrenatural, embora Deus, a priori, não tenha obrigação para com ninguém, é justo que Ele, sendo fiel cumpridor da Sua palavra, dê a vida eterna àqueles que permaneceram fiéis à graça e à caridade até o fim. O mérito de côngruo também conhece uma subdivisão: mérito de côngruo propriamente dito, que é aquele baseado em relações de amizade (assim um amigo tem o direito de pedir um favor para outro amigo), e mérito de côngruo impropriamente dito, que se fundamenta, na ordem sobrenatural, unicamente na misericórdia de Deus (assim o pecador pede a graça do arrependimento das suas faltas). É preciso acrescer que, se no mérito de côngruo propriamente dito, a justiça se salva remota e imperfeitamente, no mérito de côngruo impropriamente dito, não. Pois bem, demos mais um passo. Há disposições requeridas para que haja mérito sobrenatural. Por parte da obra, ela precisa ser um ato positivo, moralmente bom, livre e sobrenatural, isto é, proveniente da graça e da caridade. Por parte do merecedor, precisa ser um viator, ou seja, estar neste mundo, estar em estado de graça e realizar o seu ato com o intento de servir a Deus. Por parte da coisa merecida, ela precisa ser uma obra endereçada à aquisição da vida eterna. Por parte de Deus remunerador, ele precisa aceitar a obra e dispensar o prêmio, a fim de permanecer fiel às suas promessas. Feito todo este preâmbulo, vejamos como ele se aplica a Cristo. Qual foi o objeto do mérito de Nosso Senhor? Certamente ele não mereceu para si mesmo a graça (da união hipostática [exclusiva sua], a graça habitual e a capital [exclusiva sua]), nem a plenitude da ciência (divina, infusa), nem a visão beatífica, nem a sua própria divindade. Todas estas realidades se devem à união hipostática, da qual ele gozou desde o primeiro instante de sua concepção e não pôde, por isso mesmo, merecer. Contudo, Cristo mereceu a sua gloriosa ressurreição, a sua ascensão ao Céu, o estar à destra do Pai, a exaltação do seu nome e o título de Rei universal e Juiz supremo dos vivos e dos mortos. No que toca a nós, em virtude de sua graça capital, ordenada à santificação de todo o Corpo Místico, do qual ele é a Cabeça, tanto dos seus membros em ato como os dos em potência (em suma, de todos os homens), ele mereceu absolutamente todas as graças: a disposição para a justificação, a justificação em si mesma (salvação e santificação), a graça habitual e todas as graças atuais, a perseverança final e a glória. A natureza do mérito de Cristo, como já adiantamos, é o de estrita e rigorosa justiça. De fato, todas as condições requeridas para este tipo de mérito se encontram perfeitamente em Cristo: não somente a igualdade, mas também a superabundância entre o que foi oferecido (o seu preciosíssimo sangue divino) e o que mereceu (a sua exaltação e a nossa redenção); além disso, seus atos eram voluntários e próprios, pois possui a graça por direito intrínseco, em virtude da união com a pessoa do Verbo, o que deu ainda à sua oferta um valor infinito; ademais, há a distinção de naturezas na única pessoa do Verbo. Com efeito, a pessoa do Verbo, após a Encarnação, enquanto possui duas naturezas, ficou de algum modo composta, o que estabeleceu a alteridade analógica (e não unívoca) requerida entre aquele que merecia (Cristo enquanto homem) e o recompensador (Deus ou o próprio Cristo enquanto Deus); de resto, houve a aceitação dos atos de Nosso Senhor não só na ordem individual, mas ainda na social (ele mereceu a salvação para o mundo inteiro), e isso em virtude de sua graça capital, de agir como um novo Adão, como cabeça da humanidade. Mas Cristo também é a causa satisfatória da nossa salvação. Para entendermos este tópico, precisamos nos deter em algumas notas preliminares. O pecado é um ultraje desferido contra Deus, uma violação de sua santa lei. Há no pecado não só a culpa, senão também o reato da pena. E como a quem viola a lei de uma cidade é imposta uma pena, que pode ser inclusive a capital, também a quem viola a reta ordem das coisas preferindo obstinadamente a criatura ao Criador é imposta uma pena, qual seja, a danação, vale lembrar, a perdição eterna. Ora, o que é a satisfação neste contexto? É a compensação de uma injúria de acordo com a igualdade da justiça. As partes integrantes da satisfação são: a material, que consiste numa obra penosa como penalidade decorrente do pecado, e a formal, que consiste em aceitar sofrer voluntariamente e por caridade esta obra penosa com a intenção de satisfazer a ofensa cometida, no caso, contra a Majestade divina. As classes de satisfação podem ser divididas: em função da forma e em função da pessoa que oferece. Há três formas de satisfação: a reconciliatória, que se destina apenas a reparar a culpa; a expiatória, que repara apenas a pena; e a formal, que repara tanto a culpa quanto a pena. No que toca à pessoa, ela pode ser pessoal, quando a própria pessoa que cometeu o crime satisfaz, e vicária, quando outra pessoa repara o delito no lugar do criminoso. Ora, a ofensa a Deus é infinita. Não podíamos fazer nada por nós mesmos, mas Cristo veio em nosso socorro. Ele, o Homem-Deus, mediante a sua santíssima paixão, foi a causa satisfatória, no sentido formal e vicário que explicamos, de todos os pecados (culpa e pena) de todos os homens cometidos contra Deus. Ele pôde satisfazer os delitos de todos os seus membros, pois é a Cabeça do seu Corpo místico, que é a Igreja. E ele reparou, de forma superabundante, não só pelos membros em ato da sua Igreja, senão também, ratificamos, rigorosamente por todos os homens, ou seja, por todos aqueles que são membros em potência do seu Corpo místico. Cristo é ainda a causa sacrificial da nossa salvação. Os elementos que compõem um verdadeiro e próprio sacrifício são: o material, a saber, a coisa sensível destruída (por exemplo, o cordeiro no AT); a formal, que consiste na imolação ser feita em honra a Deus; a eficiente, que diz respeito àquele que imola, o qual é o sacerdote ou seu legítimo ministro; e a final, qual seja, render a Deus o culto de reconhecimento do seu soberano domínio sobre todas as coisas e nossa absoluta sujeição ou submissão a Ele. Pois bem, é doutrina católica que o Mártir do Calvário realizou um verdadeiro e perfeito sacrifício no sentido estrito. A matéria do sacrifício da cruz foi o corpo santíssimo de Cristo imolado no madeiro; o objeto formal deste sacrifício foi a destruição do seu sacratíssimo corpo enquanto aceito por Ele pela fervorosa caridade com a qual amou o Pai e a nós; a causa eficiente foi Cristo, Sacerdote e Vítima ao mesmo tempo; e a causa final foi devolver a Deus a honra violada pelo pecado, voltando a reconhecer nEle o supremo legislador e o nosso legítimo senhor ou dono. O sacrifício de Cristo, de certo modo, começou desde a sua Encarnação. Porém, só se realizou propriamente no lenho da Cruz. Hoje, Ele não sofre mais. No Céu, ele continua perpétua e continuamente intercedendo por nós ao Pai e sendo nosso advogado diante dEle, bem como comunicando-nos, por meio da fé e dos sacramentos por ele instituídos, a virtude eterna do seu sacrifício na cruz. Cristo é, finalmente, nosso redentor. Redimir, mesmo etimologicamente, significa comprar de volta ou resgatar uma coisa que havíamos perdido, pagando o preço correspondente à nova compra. Aplicada à salvação dos homens, a redenção significa devolver o homem ao seu estado de justiça e salvação em que se encontrava antes da Queda. O homem tinha perdido esses bens e outros pelo seu pecado. Tornou-se então escravo do pecado, da pena devida ao pecado, da morte, do Demônio que o tentou e venceu e da lei mosaica que não conseguia cumprir. Notemos que Cristo ofereceu seu preciosíssimo sangue unicamente a Deus que, quitando nossas dívidas (culpa e pena. Cristo reparou ainda a culpa e a pena, como vimos), libertou-nos de todas as nossas servidões. Agora, como esta redenção chega até nós? Convidamos o leitor a reler o nosso pequeno texto Da graça de Cristo, que explica como a redenção objetiva (a Paixão) torna-se subjetiva, como Cristo é também a causa eficiente da nossa redenção pessoal. Queremos dizer uma palavra ainda sobre a mediação universal de Cristo, que resume, de certa forma, toda a soteriologia. Recordemos, antes de tudo, que Nosso Senhor não tem uma personalidade humana, mas é unicamente uma pessoa divina, a do Verbo. Todavia, Ele tem duas naturezas distintas, a divina e a humana assumida, o que o torna, como já dito acima, de algum modo, uma pessoa composta e dotada de uma alteridade analógica e não unívoca: Ele é o Homem-Deus entre Deus e os homens. Prossigamos. A mediação pode ser definida como uma gestão, exercida por uma terceira pessoa, para unir ou reconciliar outras duas. Ela pode ser física, por exemplo, quando um homem reconcilia outros dois, ou moral, quando, por exemplo, uma nação ajuda duas outras a se reconciliarem. A mediação conhece dois tipos: a ontológica e a dinâmica. A ontológica é aquela cujo sujeito, por sua própria natureza, está colocado entre dois extremos aos quais quer reconciliar. A dinâmica ou de oficio é o exercício mesmo da mediação. A mediação pode ser também principal ou secundária. A mediação principal é aquela que é realizada por um mediador em razão unicamente de sua excelência e mérito. A secundária é aquela que se realiza por outro mediador enquanto ligado ou vinculado ao mediador principal. Não que esse mediador secundário não coloque algo de sua parte, mas sua mediação está essencialmente subordinada (associada) à do mediador principal. Assim, por exemplo, a mediação universal da Santíssima Virgem está em estreita dependência da de Cristo. Quantos aos efeitos da mediação, eles podem ser três: disponível, perfectivo e ministerial. A disponível prepara a mediação; a segunda a realiza de fato; a terceira a aplica. Os profetas prepararam a vinda de Cristo; Cristo reconciliou o mundo com Deus sobretudo por sua morte na Cruz; hoje, seus ministros ordenados aplicam as virtudes de sua Paixão, máxime pelos sacramentos. O mediador tem de ter as suas qualidades. A primeira é que deve ocupar o termo médio, ou seja, deve ser inferior a uma das partes e superior à outra; a segunda é que deve ser uma pessoa grata ao superior, a fim de que este se aplaque com a mediação exercida; a terceira é que deve oferecer uma satisfação proporcional à ofensa a ser perdoada ou à dívida a ser paga. Como vimos ao longo do texto, Cristo possui excelentemente todas as condições requeridas para ser mediador entre Deus e os homens. Ontologicamente ele é inferior ao Pai enquanto homem e superior aos homens pela plenitude de graça que possui; dinamicamente satisfez de forma superabundante, com a sua Paixão, as ofensas feitas a Deus, em virtude da união hipostática com o Verbo e da sua ardente caridade. Cristo é o mediador principal, já que realizou a redenção do gênero humano mediante os seus próprios méritos de estrita justiça. Pelo exposto, já fica claro que foi o mediador perfectivo, uma vez que foi ele quem realizou a redenção no madeiro da Cruz. As qualidades, Cristo as tinha todas: inferior a Deus enquanto homem, mas superior aos homens pela sua plenitude de graça; é devotíssimo e gratíssimo a Deus, pois é o próprio Filho muito amado em quem o Pai coloca todas as suas complacências; como já dissemos, em virtude da união hipostática com o Verbo e da sua fervorosa caridade, sua satisfação não só foi suficiente como superabundante; enfim, ele adquiriu ou conquistou (para nós) o direito à graça pela sua morte na cruz e a distribui pelos sacramentos. Em resumo, Cristo teve de realizar a reconciliação ou união entre Deus e os homens na Cruz, a qual se consuma em cada homem com a frutuosa recepção da graça santificante. Por isso, pelos séculos afora, o adorável Salvador tem aplicado, através dos seus ministros, esta graça aos homens, mormente pelos sacramentos. Donde Cristo ser o nosso único e suficiente salvador. Ele nos salva integralmente, o que não impede que tenha (unidos a Ele) seus colaboradores (especialmente os santos), como já entrevimos. Para fazermos este modesto texto, consultamos principalmente e até resumimos: (Royo Marín. Jesus Cristo e a vida cristã. Trad. Ricardo Harada. Rev. Juliana Amato. São Paulo: Ecclesiae, 2020. p. 427-448 e 276-280).

Jesus Cristo e nós, um só Cristo

Comecemos com uma breve exegese de um célebre passo da Carta aos Efésios (1, 3-14). Neste trecho, dois momentos podem ser distinguidos. O primeiro refere-se ao “desde toda a eternidade” e consiste no fato de Deus ter-nos escolhido, desde toda a eternidade, para sermos santos e seus filhos adotivos (1, 3-6). O segundo momento diz respeito à realização no tempo deste decreto eterno de Deus, o qual se deu por meio da nossa redenção em Cristo Jesus, através do seu sangue, e da remissão dos nossos pecados (1, 7-14). Sem podermos entrar aqui em pormenores, procedamos com ordem. Falemos, primeiramente, acerca do que se deu na eternidade. A passagem diz que Deus nos abençoou com toda sorte de bênçãos espirituais. Fica clara assim a natureza das bênçãos com as quais Deus nos cumulou: são sobrenaturais, espirituais (em oposição a temporais) e completamente gratuitas. Estas consistem exatamente na nossa escolha, vocação, justificação e glorificação. A origem destas bênçãos, como não podia deixar de ser, foi o Céu e será o Céu também o seu termo final. A causa ou motivo destas bênçãos foi Cristo. Não há outro caminho para usufruirmos das bênçãos Deus senão por Cristo, com Cristo e em Cristo. Se quisermos, podemos até resumir estas bênçãos em dois elementos principais: a eleição e a predestinação. Deste toda a eternidade, Deus nos escolheu ou nos elegeu em Cristo. Pois bem, esta eleição implica uma predileção de Deus por nós, implica também os benefícios que nos são dispensados em vista desta mesma predileção e, por fim, certa predileção em relação aos outros que não foram alvo dessa soberana escolha. Ora, quem são exatamente os eleitos? “Todos os cristãos, no pensamento de São Paulo, são eleitos, e se todos os homens fossem cristãos, todos eles mereceriam o nome de eleitos, porque cada um deles é amado como se ele fosse o favorito e até mesmo o único” (Royo Marín. Jesus Cristo e a vida cristã. Trad. Ricardo Harada. Rev. Juliana Amato. São Paulo: Ecclesiae, 2020. p. 524). Prosseguindo com o texto, São Paulo novamente ratifica que esta escolha foi feita em Cristo. Deus nos viu, desde toda a eternidade, como um com Cristo. De modo que quando o Pai nos ama é Cristo quem Ele ama em nós. Royo Marín diz mui acertadamente: “Os eleitos (ou cristãos) sem Cristo — o mesmo que a Igreja, isto é, o corpo, sem a cabeça — não podem ser concebidos no decreto eterno de Deus ou no tempo” (Idem. Op. Cit. p. 524). Seguindo com o texto, outra vez São Paulo destaca que esta escolha foi libérrima, porque se deu antes da fundação do mundo, quando só havia Deus em sua eternidade. Mas em que consiste precisamente esta escolha de Deus? Deus nos escolheu, antes da fundação do mundo, para sermos santos e imaculados. Santos, diz Marín, significa “(...) separados do mundo e consagrados ao serviço de Deus. E, por isso mesmo, imaculados, isto é, sem mácula ou mancha” (Idem. Op. Cit). De fato, que mácula ou mancha pode ter ou adquirir quem vive consagrado ao serviço do Senhor, quem é servo de Deus? Finalmente, em razão desta escolha, que remonta à eternidade, Deus nos predestinou. Mas o que significa predestinar? “Predestinar significa literalmente definir, fixar antecipadamente” (Idem. Op. Cit. p. 525). Deus nos predestinou, ou seja, definiu o nosso destino, fixou antecipadamente em relação aos nossos méritos ou deméritos que iria nos fazer santos e irrepreensíveis sob o Seu olhar ou diante dEle. Com efeito, não se trata apenas de uma santidade extrínseca ou imputada, não se trata de uma ficção jurídica. Deus nos predestinou, repetimos, para sermos santos diante dELe, que é a própria Verdade e Santidade. O Pai nos quis e nos viu verdadeiramente santos. Mas como obteremos esta santidade? Mediante a caridade, mediante o amor. Outrossim, Deus não nos quis estranhos a Ele, até porque não há, a rigor, santidade fora dEle. Por isso nos destinou à filiação adotiva. Outra vez é preciso frisar que esta filiação adotiva não é uma ficção jurídica, senão que nos é dada em Cristo, através da graça. É justo que assim seja, diz Santo Tomás, pois só o que é em si pode nos fazer participar daquilo que ele é em si mesmo. Do mesmo modo que só o fogo pode incandescer, assim só Nosso Senhor, Filho de Deus por natureza, poderia nos dar a filiação adotiva. De forma que o desígnio eterno de Deus pode ser resumido assim: “(...) tudo em Jesus, tudo por Jesus” (Idem. Op. Cit. p. 526). No tempo, este plano eterno de Deus desenrolou-se mediante a redenção ou regaste que obtivemos de todos os nossos algozes (o pecado, o mundo, o Demônio etc.) pelo sangue de Cristo vertido na Cruz. Fato a se destacar também foi a Revelação do mistério de Deus, que o próprio Deus nos deu mediante o dom da fé. De fato, pela fé descobrimos o insondável plano de Deus, a saber, que tudo no passado se orientava para o futuro, vale dizer, para a plenitude dos tempos, que se deu quando da Encarnação, Paixão e Ressurreição de Nosso Senhor. Através da fé foi-nos revelado ainda o completo plano de Deus, que é o de “(...) recapitular, isto é, reunir em um, voltar a juntar em um os elementos dispersos de uma unidade desintegrada” (Op. Cit. p. 528). Sim, “Tudo o que foi separado e disperso pelo pecado Deus decidiu reunir e reatar a Ele por Cristo (...)” (Idem. Op. Cit. p. 529). Com efeito, todas as coisas tendem para Cristo como para seu fim. Assim, o único que pode nos reintegrar ou reconciliar com nós mesmos e com Deus, porque pelo pecado fomos submetidos a uma intensa pugna com nós mesmos (a alma tem uma lei, o corpo outra), é Cristo. Sem podermos acompanhar São Paulo, digamos ainda que ele acresce que os primeiros chamados foram os judeus convertidos, seguidos dos cristãos advindos do paganismo. Ressalta, ademais, o Apóstolo que o fiel recebe o Espírito Santo, que é o selo que autentica e testemunha a todos que o cristão é propriedade de Deus. Além disso, o mesmo Espírito é também o penhor, isto é, o adiantamento e a garantia da glória futura depois deste desterro. De resto, o decreto eterno de Deus só estará completo quando estivermos na glória e a criação for então plenamente recuperada e restaurada. Depois desta brevíssima exegese, façamos uma exposição teológica do fragmento de Efésios. Sem que alguma criatura criada ou criável pudesse ter em sua natureza nem uma força eficiente, nem um título de exigência, nem sequer pudesse vislumbrar com a mente ou pensar em querer com a vontade, Deus, liberrimamente, concedeu aos anjos e aos homens uma coisa rigorosamente inimaginável: uma participação física e formal, ainda que acidental, na sua natureza divina, mediante a graça santificante. Antes, porém, de confirmá-los na graça, exigiu deles uma prova. Pois bem, houve anjos que permaneceram fiéis e foram confirmados na graça e houve os que não permaneceram fiéis e foram lançados no inferno sem esperança de redenção. E o homem também sucumbiu. O Abade Grimaud (El y nosotros: un solo Cristo) descreve a catástrofe. Imaginemos um pai de família abastado que mostre a seu filho um vaso raríssimo de porcelana que vale uma fortuna. Pede que o filho só o contemple, mas não se atreva a tocar nele. Seu filho, porém, de forma indolente, desobedece ao pai, pega o vaso e o exibe aos amigos. Faz movimentos bruscos com a obra-prima até que num deles o vaso se lhe escapa da mão, cai e se despedaça em mil pedaços. O pai furioso castiga o filho, mas não pode mais soldar as peças do vaso, pelo que então varre os restos da relíquia para fora da casa e joga fora. Pois bem, a humanidade foi confiada a Adão como um vaso precioso que, pela falta original, tal como o filho indolente, ele também deixa cair e ela se quebra em mil pedaços. Daí São Máximo, o Confessor, dizer: “A natureza única foi quebrada em mil pedaços”. Doravante, todo homem que vier à Terra virá como uma peça quebrada, será alguém desintegrado. Pois bem, será que Deus, que confiou o tesouro a Adão, irá varrer e jogar fora a humanidade também? Não. Ele resolve criar outro vaso ainda mais belo e valioso. Este vaso é nada mais nada menos que Cristo, mas não Cristo sozinho, senão Cristo enquanto Cabeça e nós enquanto membros. Com efeito, Cristo nos continha todos nELe, como Seus membros do qual Ele é a Cabeça. Ele constituía um Homem Único, a natureza humana total, um universal concreto. Destarte, Ele, em nome da humanidade, pôde expiar as consequências da terrível tragédia que Ele próprio não causou; inocente, arcou com a responsabilidade de Adão e de sua raça corrompida. Assim, como nossa Cabeça, Ele é a causa da nossa salvação e, incorporados a Ele, participamos de algum modo dos seus méritos, que passam, por assim dizer, a ser nossos (podemos nos servir deles). Podemos, inclusive, colaborar com Cristo na salvação dos homens, enquanto unidos a Ele agonizamos até o fim do mundo para que os corações empedernidos se quebrantem. Mas como pensar — continua sempre o insigne Abade Grimaud — que Deus possa amar uma humanidade que merece ser varrida e jogada fora, porque despedaçada? É que no plano de Deus, na cabeça de Deus, não existe mais a humanidade de um lado e seu Filho muito amado de outro. Ele, o Filho bem-amado, é só a Cabeça. Agora (pelo mistério da Igreja), o Filho, o único alvo do amor do Pai, é Cristo Jesus mais nós, seus membros. O Filho somos nós com Cristo e Cristo conosco. De repente, amando o Filho, o Pai ama a nós, porque estamos incorporados a Cristo. Donde Santo Agostinho dizer com toda propriedade da Igreja: nós nos tornamos Cristo. Daí ser acertadíssimo também o corolário de Royo Marín: “O cristão, fora de Cristo, é um ser irreal, um ser ‘inexistente’ — vale o paradoxo. (...). Sem Cristo estamos completamente mortos, como o ramo separado da videira. (...). Sem Cristo não somos nada e não podemos fazer absolutamente nada. (...). São legiões, desgraçadamente, as almas boas e piedosas que não compreenderam isso” (Idem. Op. Cit. p. 539). Por outro lado, felizmente existe a única e verdadeira aristocracia da qual deveríamos almejar participar, a saber, os santos, que entenderam verdadeiramente e querem levar até as últimas consequências a sua incorporação a Cristo recebida no Batismo: “Ó fogo Devorador, Espírito de Amor, ‘vinde a mim’ para que se opere em mim como que uma Encarnação do Verbo; que eu seja para Ele uma humanidade de acréscimo onde Ele renove todo o Seu mistério.” (Santa Elisabeth da Trindade). Claro que a carmelita de Dijon não fala aqui de uma nova união hipostática, isso seria uma pura heresia, mas da sua incorporação a Cristo que ela deseja arraigar, da sua filiação adotiva que ela deseja aprofundar e, enfim, da graça crística que ela quer enraizar nela e que a leva a fazer tudo por, com e, sobretudo, em Jesus. Oremos com ela: “Sinto, porém minha impotência, e peço revesti-me de Vós, identifique a minha alma com todos os movimentos da Vossa, substitui-me, invadi-me, subtrai-me para que minha vida seja uma irradiação da Vossa. Vinde a mim como Adorador, como Reparador e como Salvador.” (Santa Elisabeth da Trindade).

Da dignidade do cristão

São incalculáveis e inumeráveis as riquezas da vida cristã. Impossível compendiá-las todas num texto tão despretensioso como o nosso. Atenhamo-nos as que nos parecem mais sublimes e inestimáveis. Comecemos por uma riqueza inaudita que está na alma em estado de graça, a saber, a inabitação trinitária. Antes, porém, convém enumerar as outras formas de presença de Deus. Há a presença hipostática, que é exclusiva de Cristo. Com efeito, em Cristo, a pessoa divina do Verbo não está presente como num templo, mas é a sua própria pessoa. Existe a presença eucarística. Nela, por exemplo, por força da consagração do pão, dá-se a transubstanciação da substância do pão na substância do corpo de Cristo, presente doravante sob a espécie eucarística. Por concomitância, também o seu sangue, alma e divindade estão presentes. Por circumincessão ou presença mútua estão presentes também as duas outras pessoas da Santíssima Trindade, quais sejam, o Pai e o Espírito. Há ainda a presença de visão. Assim, Deus está em todo lugar, mas não se deixa ver. Na visão beatífica, Ele se deixará ver pelos bem-aventurados sem nenhum intermediário, através da luz da glória (lumen gloriæ). Outra forma de presença de Deus é a de imensidade, pela qual Deus está presente no pecador e até nos demônios. Esta presença de imensidade se dá de três formas. Por essência, Deus está presente em todas as coisas conservando-as no ser; se faltasse a elas esta presença de Deus, ipso facto, cairiam no nada. Por presença, diz-se que Deus está presente em toda criatura enquanto tudo nelas está nu e descoberto ou desvelado diante dEle. Por potência, fala-se da presença de Deus enquanto este possui o poder de aniquilar qualquer criatura que Ele próprio criou. Já a inabitação, que é a que nos interessa aqui, define-se como uma presença de Deus na alma do justo como pai e amigo. Vejamos a presença de Deus, sob o aspecto da paternidade. Para um ser vivente ser pai de outro precisa lhe comunicar a sua vida, vale dizer, a sua natureza específica. Assim, Deus é verdadeiramente Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, porque comunica (desde toda a eternidade) à pessoa do Verbo, que assumiu uma natureza humana, a plenitude da sua natureza. Diz-se também com propriedade que Deus é Pai dos batizados, porque lhes comunicou uma participação acidental, porém real e verdadeira, na sua natureza. A esta participação misteriosa damos o nome de graça santificante. Deus se entretém com a alma em estado de graça como Pai. Mas Deus está presente na alma também como amigo. De fato, quando Ele comunica a graça santificante ao homem, com ela vem o maravilhoso cortejo das virtudes infusas e dos dons do Espírito Santo, dos quais o principal é a virtude teologal da caridade. Pois bem, a caridade consiste numa mútua benevolência e doação, ou seja, numa amizade entre Deus e a alma. A finalidade, pois, da inabitação das pessoas divinas na alma do justo é realizar uma espécie de encarnação do absolutamente divino no cristão: “Mas a inabitação divina é como a encarnação ou inserção em nossas almas do absolutamente divino (...)” (Royo Marín. Jesus Cristo e a vida cristã. Trad. Ricardo Harada. Rev. Juliana Amato. São Paulo: Ecclesiae, 2020. p. 549). Todavia, é preciso acrescer, neste contexto, que a Trindade não vem à alma para ficar ociosa; Ela quer, de algum modo, transformar-nos nEla. O Pe. Ramière (El Corazón de Jesús y la divinización del cristiano), seguindo a sugestiva imagem do ferro e do fogo de Santo Tomás, explica esta divinização: a presença do fogo e a combustão do ferro são duas coisas diferentes. Esta última é um modo de ser do ferro adquirido quando incandescido pelo fogo e aquela não é senão o fogo enquanto incendeia o ferro. Na combustão, ferro e fogo são inseparáveis, é verdade, mas permanecem duas substâncias distintas. Algo análogo — continua o mesmo padre — acontece no cristão: ele é física e, por assim dizer, substancialmente divinizado pela presença da substância divina nele, agindo nele. Porém, neste processo, ele não se torna de forma alguma a mesma substância ou pessoa com Deus. Sua personalidade permanece intacta. Desta maneira, fica salvaguarda a própria união, porquanto se uma das partes simplesmente fosse absorvida e desaparecesse, a união se desafaria também. A mística católica nada tem a ver com a “união panteísta”: “A união panteísta não é propriamente união, mas negação absoluta da união, já que um dos dois termos — a criatura — desaparece quando é absorvida por Deus. A união mística não é isso” (Idem. Op. Cit. p. 550). Entretanto, para que o cristão tenha plena posse da Trindade é mister que possa fruir dela sempre quando quiser. Santo Tomás chega a dizer que essa é uma prerrogativa da posse. Para que alguém se convença de que possui algo, de que algo é seu, precisa poder dispor ou gozar dele sempre quando quiser. Pois bem, de tal forma Deus se entrega a nós, que passa a estar, sob certo aspecto, à nossa disposição, em nossas mãos, para que possamos usufruir dEle como de algo que nos pertence, que seja nossa propriedade. Neste sentido, o Pe. Ramière diz que a presença de inabitação se distingue da de imensidade precisamente no seguinte: na presença de imensidade dá-se algo análogo do que seria se um homem paupérrimo fosse colocado junto de um imenso tesouro que, no entanto, não é seu, não é propriedade sua. Na inabitação, Deus nos pertence. Mas quem é chamado a possuir Deus? Responde sem pestanejar o Pe. Royo Marín: “(...) todos os cristãos são chamados a estas alturas, e eles chegariam, de fato, se fossem perfeitamente fiéis à graça e não paralisassem a ação santificadora com suas contínuas resistências à ação progressiva do Espírito Santo” (Idem. Op. Cit. p. 554). Agora, como viver este mistério da inabitação divina em nós dignamente? A primeira é com uma fé viva, pois a fé, como diz o Pe. Philipon (La doctrina espiritual de sor Isabel de la Trinidad), é como uma força que arrasta para o presente, para a nossa alma, os bens futuros para que deles possamos desfrutar desde agora. Outra forma de viver este mistério é uma caridade ardente. A caridade é a virtude que mais nos une a Deus. Ela é como braços invisíveis pelos quais agarramos a Deus e O abraçamos forte como a própria Bondade (motivo formal) e nosso pai e amigo, além de fim último. Conclui acertadamente Royo Marín: “E uma vez que Deus é a santidade por essência, e não há outra santidade possível além daquela que recebemos d’Ele, segue-se que a alma será tanto mais sagrada quanto mais próxima estiver de Deus, pelo impulso de sua caridade” (Idem. Op. Cit. p. 556). Por conseguinte, é a caridade, que depende da graça santificante, que nos santifica, enquanto nos une intimamente a Deus. Mas podemos ir mais fundo. Dissemos acima que a inabitação da Trindade nos advém da graça santificante, isto é, que a graça incriada pressupõe a criada. É o que diz Frei Royo Marín: “Ora, essa graça incriada implica necessariamente a presença de outra graça criada na alma, a tal ponto que esta não seria possível sem aquela” (Idem. Op. Cit. p. 561). Santo Tomás justifica isso da seguinte forma. A transição de não posse do Espírito Santo (e das outras duas pessoas) para a sua posse só se dá com uma mudança: ou no dom em si mesmo ou no donatário. No caso, o dom é imutável, porque é o próprio Deus. Forçosamente há de haver então uma mutação real do donatário e esta mudança acontece justamente pela infusão da graça santificante na essência da alma. Neste sentido, a graça santificante, conclui corretamente Marín, “(...) é para nós de maior valor que a própria habitação trinitária” (Idem. Op. Cit. p. 561-562), porque é ela que, desde a essência da nossa alma, modifica-nos, tornando-se consortes da natureza divina e santificando-nos, desta sorte, formalmente. Mas o que é essa graça santificante exatamente? Desde já adiantamos que é um mistério. Ocorre que Deus, ao criar-nos do nada e não de Si mesmo, excluiu-nos, ipso facto, da Sua vida intima. Assim, toda natureza criada ou criável não tem em si nenhuma exigência que coaja a Deus a lhe fazer partícipe da sua vida sumamente bem-aventurada. Contudo, aquilo que nem nós temos o direito de exigir, nem Deus a obrigação de fazer, Deus liberrimamente o fez. Tornando-nos participantes da sua vida, deu-nos verdadeiro um organismo sobrenatural (as virtudes e os dons infusos) que, sob o comando da caridade, pode merecer a vida eterna com um mérito de condigno ou justiça proporcional. E o gérmen deste organismo e da própria vida eterna é justamente a graça santificante. Mas o que significa, afinal, participante da natureza divina? Ora, por natureza entende-se aqui “o ser enquanto princípio de suas operações”. Portanto, participar da natureza divina pela graça santificante é ser capaz de operar divinamente: “Em nós, o divino não é a substância, mas as operações” (Idem. Op. Cit. p. 565). Afora a união hipostática, exclusiva de Jesus Cristo (a Santíssima Virgem é a única criatura que participa, por singularíssimo privilégio, da ordem hipostática, que é superior à ordem da graça e da glória), Deus não poderia fazer nada de maior no âmbito da natureza. Rigorosamente, mesmo com a Sua onipotência, Deus não poderia nos dar um dom maior que o da graça santificante e tudo que ela acarreta: “O próprio Deus, com todo o seu infinito poder, não poderia criar uma realidade superior à graça santificante, já que é impossível para Ele comunicar a um ser criado qualquer perfeição superior à sua própria natureza divina” (Idem. Op. Cit. p. 566). De resto, como corolário espontâneo disso, é que nenhuma natureza criada, sob pena de contradição, poderia nos dar o que Deus nos dá: uma participação na Sua natureza divina. Ademais, uma vez que com (ou na) a graça santificante é-nos comunicada uma participação real na natureza específica de Deus, e dar a outro ser vivente pelo menos algo de sua natureza específica é o que constitui a paternidade, a graça santificante nos dá verdadeiramente uma filiação adotiva, pois algo procedente da Deidade modifica a essência da nossa alma: “Se nos fosse permitido um símile, diríamos que a graça é como uma injeção de sangue divino que começa a circular realmente pelas veias de nossa alma, fazendo-nos entrar, por assim dizer, na própria família de Deus” (Idem. Op. Cit. p. 567). Porém, a graça santificante não é ela mesma imediatamente operativa. Em si, é um hábito entitativo e não operativo, “Dá-nos a vida sobrenatural, mas não a operação sobrenatural” (Idem. Op. Cit. p. 569). Contudo, dela fluem para as potências da nossa alma as virtudes que, com ela, foram infusas em nós por Deus, tanto as teologais (fé, esperança e caridade) quanto as morais, das quais as principais são as cardeais: prudência, justiça, fortaleza e temperança. Estas virtudes, quanto à substância, são sobrenaturais, mas a princípio agem segundo o modo humano das nossas faculdades, o que faz com que elas não respirem a plenos pulmões até que sejam robustecidas pelos dons do Espírito Santo, que também recebemos com a graça santificante e que se juntando às virtudes nas potências da nossa alma, faz-nos dóceis às moções do Espírito que, a partir de certo momento, começa Ele mesmo a agir em nós. Estes dons, num primeiro momento, são hábitos meramente receptivos ou passivos que recebem as moções do Espírito, mas como em seguida também reagem vitalmente a estas moções, devem ser chamados mais propriamente de hábitos passivo-operativos. Podemos até usar a comparação que os autores espirituais costumam dar para entendermos melhor: as virtudes infusas são como uma harpa sobrenatural, com mais de cinquenta cordas, que Deus nos concede junto com a graça santificante. Enquanto somos nós, com a ajuda das graças atuais ordinárias e de acordo com as débeis potências das nossas almas a tocarmos esta harpa (isto é, a fazermos os atos sobrenaturais), a melodia que ela produz sai monótona e imperfeita. Porém, quando os dons começam a preponderar e a permitir que o Espírito Santo mesmo toque este divino instrumento, a melodia que sai dele se torna cada vez mais angelical, melhor ainda, celestial. Enfim, quando prevalece o nosso modo humano de operar as virtudes, estamos na etapa ascética; quando predomina, pelos dons do Espírito Santo, o modo divino de operar as virtudes, estamos na etapa mística. Uma imagem cheia de vivacidade (dada pelos espirituais) que também pode nos ajudar a distinguir estas etapas é a do barco. Enquanto somos nós que remamos, estamos na etapa ascética; mas quando, ante um vento favorável, abrimos as velas e o barco começa a ser levado pelo próprio vento (o Espirito Santo) para o seu porto seguro, estamos na etapa mística. Quem são os chamados à mística? Novamente é preciso ratificar o que já dissemos: “A mística não é um estado extraordinário e anormal reservado a alguns aristocratas do espirito, mas o caminho ordinário e normal que todas as almas têm de percorrer para alcançar a completa expansão e desenvolvimento da graça santificante, recebida em forma de semente ou germe no sacramento do Batismo” (Idem. Op. Cit. p. 576-577). O nosso organismo sobrenatural agora está completo. Mas como fazê-lo funcionar? Diz a filosofia que um hábito só pode passar a ato pelo agente que o causou. Ora, nem as virtudes nem os dons foram hábitos adquiridos pelo homem, senão infusos por Deus. Donde só Ele, por meio do que chamaremos de graça atual, pode levar a ato os hábitos que Ele próprio infundiu. A graça atual se apresenta então como um movimento sobrenatural, fluido e transitório, que é necessário para levar a ato os hábitos (virtudes e dons) infusos por Deus. A graça atual conhece várias divisões, mas mencionaremos aqui somente a principal: a graça cooperante, na qual a alma é movida e movente, e a graça operante, na qual a alma é apenas movida. A graça cooperante pode ser comparada com uma mãe que segura os braços do bebê para ajudá-lo começar a andar. Este tipo de graça atual é a que prevalece na etapa ascética. A graça operante pode ser associada à imagem da mãe que toma o bebê nos braços e o carrega para um lugar seguro. Esta espécie de graça atual prevalece na etapa mística. As graças atuais servem tanto para ajudar alguém que não tenha ainda os hábitos para que passe a tê-los como para fazer alguém que já os têm a operá-los. Enfim, por meio da graça atual, Deus pode nos socorrer, prevenindo-nos de cometer um pecado mortal. Conclui Royo Marín: “Como se pode ver, a graça atual é inestimável. Estritamente falando, é ela que dá eficácia à graça habitual, às virtudes e aos dons. É o impulso de Deus, que coloca em movimento o organismo de nossa vida divina desde as profundezas de nossa alma, templo vivo da Santíssima Trindade” (Idem. Op. Cit. p. 585). Como já deixamos entrever, o único temor da alma ante um organismo sobrenatural tão perfeito seria perdê-lo, o que acontece de fato quando cometemos um pecado mortal. Nada nos deveria incutir então mais pavor do que o pecado mortal. Cometendo-o, perdemos a graça santificante, as virtudes, os dons, a inabitação trinitária, os méritos e a amizade com Deus. Ora, perder a companhia do nosso Pai celestial neste exílio deveria nos causar o maior horror possível: “Nada, na verdade, deve horrorizar tanto o cristão quanto a possibilidade de perder este tesouro através do pecado mortal. As maiores calamidades e infortúnios que podemos imaginar no nível puramente humano e temporal — doenças, difamação, perda de todos os bens materiais, morte de entes queridos, etc. — são mera brincadeira e motivo de riso se comparados à terrível catástrofe que representa para a alma um único pecado mortal” (Idem. Op. Cit. p. 552). Por outro lado, não podemos estacionar na luta contra o pecado, devemos avançar, fazendo com que a graça santificante, as virtudes e os dons se radiquem em nós cada vez mais. Como todos eles são qualidades e não quantidades, eles crescem não por adição, mas por intensidade. Ora, como vimos, eles (as virtudes e os dons) só são postos em movimento pelas graças atuais e estas não dependem de nós, mas de Deus. Por isso, devemos sempre, em última instância, pedir a Deus em oração, com humildade e perseverança, que nos conceda as graças atuais mais intensas que precisamos. A tal ponto é assim, que Royo Marín conclui que, “(...) nesse sentido, pode-se dizer que todo o processo de nossa santificação se reduz, por nossa parte, à oração e à humildade; a oração, para pedir a Deus essas graças prevenientes e eficazes, e a humildade, para atraí-las de fato sobre nós” (Idem. Op. Cit. p. 690). Deus certamente não nos negará tais graças, pois Ele é o primeiro a querer nos ver crescer. Contudo, a bem dizer, mesmo a busca dos sacramentos, a oração e a humildade são frutos das preveniências divinas. Por isso, a rigor, a nossa salvação e santificação estão nas mãos de Deus. Nós estamos nas mãos de Deus.

Da sublimidade do Batismo

São imensuráveis os bens sobrenaturais que este sacramento nos comunica. Tentemos neste breve texto apenas mencionar alguns dos efeitos do chamado sacramento do nascimento ou da adoção. O primeiro efeito do Batismo é nos regenerar. Nele, a graça santificante é-nos dada sob a modalidade de regeneração. Deus, de fato, nos gera de novo, nos faz nascer de novo. E como tudo o que é gerado adquire, de algum modo, a natureza do que o gera, podemos dizer que somos deificados pelo Batismo: “Pela graça do Batismo — diz o Pe. Philipon (Le sacraments dans la vie chrétienne) — o cristão é outro deus, caminhando sobre a Terra como outro Cristo (...)”. E como o nosso Deus não é o Deus solitário dos filósofos, mas Uno e Trino, saímos do Batismo divinizados deste modo. Assim, pelo menor ato de fé participamos do conhecimento que o Pai tem de Si mesmo, isto é, do seu Verbo. A fé é, pois, da mesma ordem da visão beatífica, mais, da mesma ordem da vida trinitária. Pelo menor ato de caridade participamos do mesmo Amor Substancial (o Espírito Santo) com o qual o Pai ama e o Filho e o Filho ama o Pai. A vida da Trindade é assim inserida em nós e, por meio de nós, no mundo. Contudo, a fé e a caridade são ainda tesouros criados. Maior que os seus tesouros é o Deus dos tesouros. Pois bem, outro efeito do sacramento do Batismo é que por Ele nos tornamos templos vivos da própria Santíssima Trindade. “A graça [criada] é como o trono onde a Santíssima Trindade se senta no centro mais profundo de nossa alma (...)” (Royo Marín. Jesus Cristo e a vida cristã. Trad. Ricardo Harada. Rev. Juliana Amato. São Paulo: Ecclesiae, 2020. p. 602). O Pe. Philipon frisa novamente a dinâmica trinitária na qual somos inseridos pelo Batismo. Participamos, realmente, das operações da Trindade. Como já ressaltado, a fé, mas sobretudo o lumen gloriae, é uma participação no conhecimento que o Pai tem de Si mesmo em seu Verbo, Cristo. A caridade é uma participação no Amor Substancial, que é o Espírito Santo. Finalmente, comunicando-nos uma participação real, ainda que acidental, na sua natureza específica, Deus se torna verdadeiramente nosso Pai e nós, verdadeiramente seus filhos adotivos. Outro efeito do Batismo é nos tornar membros vivos de Cristo. Destarte, devemos começar a fazer tudo por Cristo, porque já não nos pertencemos; devemos, ademais, fazer tudo com Cristo, porque Cristo passa a habitar fisicamente com a sua divindade e virtualmente com a sua santíssima humanidade em nossa alma. Logo, é mais do que razoável que façamos tudo unidos a Ele. Todavia, estas modalidades ainda são meramente extrínsecas. Como membros vivos de Cristo, devemos também passar a fazer tudo em Cristo, ou seja, nEle, enquanto membros do seu Corpo místico, que é a Igreja e do qual Ele é a adorável Cabeça. De modo que as nossas ações devem passar a se identificar com as dEle, sendo a nossa vida uma irradiação da Sua. Claro, o Jesus de Nazaré, enquanto pessoa divina que teve duas naturezas distintas (divina e humana) e viveu neste mundo, é alguém único. Porém, há o Cristo místico, que é Jesus e a Igreja. Deste é que se diz propriamente que “O Cristo total (...) é Cristo mais nós. Como ramo de Cristo, [o cristão] vive de sua vida e circula nas suas veias a mesma seiva vivificante de sua divina Videira. Jesus Cristo não está completo sem nós. Ele não alcança sua plenitude de Cristo total se não somos um com Ele” (Idem Op. Cit. p. 592). Cristo quis depender de nós para estender os seus braços sobre o mundo e tocá-lo, aplicando nele a virtude salutífera ou salutar da sua Paixão. A Encarnação de Cristo quer se prolongar na história pela Igreja, vale lembrar, pelos seus membros. Neste sentido, como diz Plus (Cristo en nosotros), não é de todo correto dizer que o cristão é outro Cristo (Christianus alter Christus), senão que o cristão é o próprio Cristo, não algo diferente dEle, como o ramo não é algo despregado da Videira e o membro não é uma coisa diferente do seu Corpo. Por nosso Batismo — continua Plus —, estamos vocacionados a ser um com Cristo, a ser o único Cristo. Por isso, a nossa fidelidade ao sacramento que recebemos se mede pelo nível de nossa cristificação, vale dizer, pelo nível em que nos convertemos em Cristo. Além disso, este sacramento apaga todos os pecados, seja o original, sejam os atuais, se houver (no caso dos adultos e com a condição de haver a atrição). Outrossim, apaga a pena eterna e todas as penas temporais devidas ao pecado (no sacramento da Penitência, a Paixão cura o pecado, mas pode permanecer parte das penas temporais se não houve uma contrição). Santo Tomás explica este prodígio dizendo que, no Batismo, a Paixão de Cristo atua nos gerando para a vida divina, Ora, toda geração implica uma morte total do que existia antes, a saber, a vida pecaminosa. Portanto, àqueles que são batizados, não é lícito impor nenhuma penitência pelos pecados cometidos na vida passada. E se acontecer de serem surpreendidos pela morte, ensina a Igreja que entrarão imediatamente no Céu e acederão à visão direta de Deus. Pois bem, diante das divinas finezas deste sacramento, qual não deve ser a nossa resposta, senão, antes de tudo, morrer para o pecado a cada dia? Quem estaria disposto a trocar a sua vida temporal por dez centavos? No entanto, são muitos os que trocam a sua vida sobrenatural por algumas lisonjas da carne, do mundo ou do Demônio. O Abade Grimaud (El y nosotros: un solo Cristo) nos mostra a condição horrenda de um membro de Cristo em pecado mortal. Imaginemos que no Batismo nossa alma, mediante as suas faculdades sobrenaturalizadas, tornou-se como uma mão capaz de agarrar a Deus de modo multiforme: com a fé, agarramo-lo como Verdade Primeira; com a esperança, como nosso Bem Supremo, e com a caridade, como a Bondade em si mesma. Acontece, no entanto, de infelizmente cairmos num pecado mortal. Ora, é como se o pulso da nossa mão se quebrasse, e como a caridade são o nervo e a artéria da nossa mão, com o acidente do pulso, perdemo-la, como perde a mão acidentada o seu nervo e artéria. Permanecem, todavia, os tendões, que são como a fé e a esperança informes, mas a nossa mão encontra-se num estado deplorável: é um membro morto, atrofiado, quase decepado, pendido no ar. Se não nos convertermos rápido, chegará o momento em que perderemos também os tendões da esperança e da fé. À nossa pobre mão só restará então a putrefação e teremos a mutilação ou amputação. De membros vivos de Cristo, passaremos a membros cortados e necrosados. Daí a necessidade urgente de conversão, de voltarmo-nos de todo o coração à nossa divina Cabeça. Entretanto, a verdade é que são legiões de cristãos que vivem mergulhados no neopaganismo dos nossos tempos: “São incontáveis, infelizmente, os cristãos que não vivem assim [em Cristo]. Absorvidos inteiramente pelas coisas da Terra, raramente levantam os olhos para o Céu. Sua vida é puramente humana e natural, sem horizontes sobrenaturais, sem ideais de perfeição, sem anseios pela santidade. O principal, para eles, é a saúde do corpo, ganhar dinheiro, ampliar seus negócios, cercar-se de maiores confortos. Alguns conseguem se tornar milionários e se consideram felizes, sem perceber que muito em breve — antes, talvez, do que suspeitam — irão para o túmulo e a grande farsa desde mundo terminará para sempre” (Idem. Op. Cit. p. 611). Mas então como deve viver o cristão em meio ao paganismo? O batizado deve tomar ciência de que aquele que recebeu o ser de Cristo no Batismo — diz o Pe. Philipon — deve também obrar em Cristo, pois o agir segue o ser. Sem dúvida, Cristo Cabeça é a causa superabundante da nossa salvação e santificação, mas Ele quis precisar de nós para que os efeitos da Sua Paixão chegassem a todos. De forma que, sem nossa conversão e empenho apostólico, não só o Cristo místico fica incompleto como também a sua obra fica incompleta. Destarte, como os santos, devemos calcar com os pés toda glória e louvor deste mundo e passar pelos atrativos desta vida como “sonâmbulos”, na forte expressão do Pe. Royo Marín. A nossa verdadeira nobreza, o nosso ouro de lei foi-nos dado, pois, pela grandeza da nossa vocação batismal: “A própria ordenação sacerdotal, o próprio supremo pontificado são inferiores ao Batismo: o Papa é muito maior por ser cristão do que por ser Papa” (Idem. Op. Cit. p. 606). Em virtude do caráter indelével que o Batismo imprime, o cristão que não anele a salvação e se perca, será um cristão no Inferno.

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