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Tomás de Aquino
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por: - Data:29/05/2020 às Horário: 13:46
Teologia da santidade para leigos
 

Preâmbulo

Não é tarefa das mais fáceis interpretar um autor ou obra, sobretudo quando o assunto é teologia ascético-mística. As obras conhecem edições diferentes e entre os assuntos muita coisa ainda está sendo discutida. Os autores evoluem, pois o pensamento de cada um em particular comporta ou admite progressos. Sintetizar tudo isso, com a pouca visão que tenho para pesquisar não é simples. Abreviar ou evitar certas distinções consagradas em latim, porém difíceis para nós leigos, toca meus limites. Como falar da comunicação de idiomas ou propriedades das naturezas (divina e humana) em Cristo (pessoa divina)? Como renunciar ao latim para distinguir vontade natural (do fim; não deliberada) e vontade racional (escolha deliberada dos meios. Em Cristo, a escolha era instantânea, por causa da plenitude da ciência que possuía). Como explicar liberdade de exercício (poder agir ou não agir), de especificação (poder preferir um bem a outro) e de contrariedade (poder escolher entre o bem e o mal), sendo esta última uma defectibilidade da nossa condição criatural? Como expor, sem recorrer ao tecnicismo, os diversos tipos de méritos, o de condigno ou estrita justiça (só Cristo nos mereceu a redenção e a vida eterna com rigorosa justiça), o de condigno ou justiça proporcional (em estado de graça e sob o império da caridade, podemos merecer a vida eterna) e o de côngruo (por exemplo, podemos merecer a primeira graça para outros), só para ficar nos principais? Os tipos de graças atuais (por exemplo, a suficiente nos impulsiona a agir e a eficaz nos faz agir eficazmente; na graça operante a alma é só movida; na cooperante, a alma é movida e movente), como explanar sobre? Ademais, são os santos quem nos escolhem e, com eles, vêm-nos as escolas teológicas. Fui escolarizado no Educandário José de Anchieta. Carrego o nome de Sávio. Sou vidrado em Santo Tomás de Aquino, mas no grupo de Oração que ajudei a fundar tínhamos devoção a São Francisco e a Nossa Senhora da Salette. Tudo isso para dizer que muitas são as minhas influências e me falta competência para assimilá-las. Fui um animal universitário até o fim do meu mestrado em Filosofia pela UFMT. Faz anos andei defendendo teses iníquas. De fato, pensar o homem como causa primeira, como dotado de uma liberdade não participada que dispensa o concurso divino é blasfêmia. Hoje reconheço que para se chegar a Tomás de forma infrustrável é preciso passar pelos grandes comentadores. Na verdade, Santo Tomás aplica em teologia a sua filosofia. Espero vozes amigas e críticas positivas ou construtivas.

Do sobrenatural e santidade da Igreja

Do sobrenatural podem-se dizer muitas coisas, mas para o que aqui nos interessa basta-nos defini-lo. Esta noção se divide em sobrenatural absoluto e relativo. O sobrenatural absoluto é aquele que ultrapassa as forças eficientes e as exigências de toda a natureza criada ou criável. Aliás, é isso que faz da ordem sobrenatural mormente gratuita e divina. O sobrenatural absoluto se subdivide em sobrenatural quanto à substância, que diz respeito às coisas intrínsecas e essencialmente sobrenaturais (como os mistérios estritamente de fé: a Encarnação, a graça, a glória etc.), e em sobrenatural quanto ao modo, que diz respeito às coisas entitativamente naturais, mas que se dão ou ocorrem de modo sobrenatural (por exemplo, a ressureição não gloriosa de um morto). O sobrenatural absoluto quanto à substância excede ainda as forças cognitivas e apetitivas de qualquer natureza intelectual criada ou criável, já o sobrenatural absoluto quanto ao modo não. O sobrenatural relativo é aquele que ultrapassa a força de alguma natureza criada, mas não de toda a natureza criada. Melhor seria chamá-lo então de preternatural. Pois bem, a graça santificante é um acidente essencialmente sobrenatural. É um sobrenatural absoluto quanto à substância, portanto. Ela inere à essência da alma do justo, que a recebe pelos atrativos (e ação eficaz) da graça preveniente e por sua potência obediencial. Muitos erroneamente a desprezam quando ouvem falar que ela é um acidente. Contudo, lembremo-nos de que, mesmo sendo um acidente, por ser essencialmente sobrenatural, a graça ultrapassa todas as substâncias naturais criadas ou criáveis, a ponto de Santo Tomás dizer que o mais ínfimo bem da graça concedido a um indivíduo é uma façanha que vale mais do que a natureza de todo o universo (Suma Teológica. I-II, 113, 9, ad 2). No mesmo lugar, diz o Doutor Angélico (citando Santo Agostinho), que a conversão de um ímpio para justo é uma proeza divina maior que a criação do Céu e da Terra. Mas o que a graça faz exatamente? Já esboçamos: torna-nos participantes da natureza divina, amigos de Deus, seus parentes, com quem Ele pode ter um relacionamento familiar. Mais do que isso: faz-nos formalmente seus filhos adotivos, aptos a chamá-lo de Pai. A graça santificante nos une afinal a Deus, dando-nos inclusive a inabitação da Santíssima Trindade (sobrenatural substancial incriado). Em uma palavra, a graça santificante faz-nos, como o próprio nome indica, santos. Por isso, está corretíssimo dizer Royo Marín: “Santidade, em geral, consiste na união com Deus. A razão é porque somente Deus é santo por sua própria natureza e essência. (...). E como a união sobrenatural com Deus é estabelecida nas criaturas pela graça santificante, segue-se que o crescimento da graça e da santidade são uma e a mesma coisa: quanto maior a graça, maior a santidade, e vice-versa.” (Royo Marín. Jesus Cristo e a vida cristã. Trad. Ricardo Harada. Rev. Juliana Amato. São Paulo: Ecclesiae, 2020. p. 104). A graça faz-nos santos incoativamente, pois a recebemos como um gérmen. Ora, todo gérmen é chamado a crescer e se desenvolver. Não há espaço aqui para falar de todos os meios eficazes para nos fazer crescer na graça, bem como no cortejo das virtudes e dons infusos que com ela vêm. Entretanto, uma coisa é certa, todos nós batizados somos chamados a crescer na graça, o que significa dizer que todos somos chamados à santidade, até a semente da glória alcançar a sua consumação, que é a visão beatífica. Disso se segue serem justíssimas as palavras de Royo Marín: “A mística não é um estado extraordinário e anormal reservado para uns poucos aristocratas do espirito, mas o caminho ordinário e normal que todas as almas devem percorrer para lograr a completa expansão e desenvolvimento da graça santificante, recebida em forma de semente ou gérmen no sacramento do batismo.” (Royo Marín. Teologia moral para leigos. Trad. Welder Walmor Ayala. Rev. Fabio Florence. Rio de Janeiro: Ed. CDB, 2022. t. I. p. 294).  Pois bem, chegou o momento de frisar que o lugar ordinário e normal para se realizar este desenvolvimento da santidade é a Igreja. A Igreja deve ser não somente santa, mas uma fábrica de santos; seus ministros ordenados, engenheiros da santidade. Com que unção profética diz isso o Pe. Weiss: “Jesus Cristo, não fundou sua Igreja senão para que fosse santa. A verdadeira sociedade dos fiéis deve ser um povo santo. Quantos aceitem a fé cristã são chamados à santidade. Ou bem se deve aspirar a ela, ou se deve renunciar ao nome de cristão, ao título de santo. Pois o que Deus quer é nossa santificação.” (P. Weiss. Apología del Cristianismo. In: Arintero. La Evolucíon Mística. Madrid: BAC, 1952. p. 11. [A tradução é nossa]). E ainda: “As principais causas da frieza espiritual e paralisia destes tempos, é a falta desta salutar doutrina e a indiferença em relação à santidade. O que nossa época necessita mais que nada são os verdadeiros santos, os homens novos e completos, os verdadeiros cristãos, interiores, perfeitos.” (P. Weiss. Apología del Cristianismo. In: Arintero. La Evolucíon Mística. Madrid: BAC, 1952. p. 12. [A tradução é nossa]). Impossível ser mais claro e preciso: a Igreja precisa ser uma oficina de santos. Ela não necessita do ouropel dos pseudorreformadores, mas mais do que nunca de santos, estes sim os verdadeiros reformadores da Barca de Pedro. No entanto, a vida cristã não tem somente o aspecto positivo de que falamos até agora. Nossos primeiros pais pecaram e herdamos deles uma natureza decaída. Deste então, pois, não nos basta uma graça que nos eleve, senão que nos sare. Precisamos de uma graça que nos cure e eleve (sanans et elevans), pois a nossa vida neste mundo não será só elevação, mas sobretudo peleja. E quem nos redimiu foi o Homem-Deus, nosso adorável salvador Jesus Cristo. Doravante, isto é, desde a queda de Adão, não existe mais propriamente a graça de Deus, senão a graça de Cristo: “E todas as [graças] que receberá a humanidade, até a consumação dos séculos, brotam do Coração de Cristo, como única fonte e manancial. Já não temos gratia Dei, como a tem os anjos e a tiveram nossos primeiros pais no estado de justiça original. A nossa, a de toda humanidade decaída e reparada, é gratia Christi, ou seja, a graça de Deus através de Cristo, graça de Deus cristificada.” (Royo Marín. Teologia da Perfeição Cristã. Trad. Dalton Zimmerman et al. Rev. Fabio Florence et al. 4 ed. Anápolis: Magnificat, 2020. p. 79). Busquemos a Cristo, que quer nos comunicar a sua graça, máxime nos sacramentos. Ora, dentro deste contexto no qual nos encontramos, o pecado mortal se apresenta como o único mal digno deste nome, como dizia Santa Teresa. Ele nos faz perder uma vida talvez já em boa parte acrisolada pela graça. É algo terrível, pavoroso, que nos transforma em membros mortos da Igreja: “Daqui [o fato] que a perda da graça seja a maior calamidade que pode suceder a um homem, e sua aquisição a maior ventura. Com ela nos vêm todos os bens, pois vem o mesmo Autor de todos eles; sem ela tudo está perdido, já que da excelsa e incomparável dignidade de filhos de Deus, se desce à vil e abominável condição de filhos da morte, da perdição e da ira.” (Arintero. La Evolucíon Mística. Madrid: BAC, 1952. p. 25 [A tradução é nossa]). A Venerável carmelita Madre Francisca do Santíssimo Sacramento fala-nos também: “Deus mostra-me muitas vezes, como está uma alma em pecado mortal. É uma coisa terrível a fealdade e horribilidade que tem: não há monstro no mundo a que compará-la. Também costuma mostrar-me o que é estar uma alma em graça: isto é coisa muito deleitável; sua formosura e beleza, nem com o sol nem com quanto há criado tem comparação.” (In: Arintero. La Evolucíon Mística. Madrid: BAC, 1952. p. 25-26 [A tradução livre é nossa]). Por isso, se estamos com o mau odor do pecado mortal, busquemos na oração um salutar arrependimento e corramos para receber a absolvição, que não nos dá uma regeneração, pois esta se dá uma vez por todas no Batismo, mas sim uma ressurreição espiritual. Batismo e Confissão são sacramentos dos mortos.

Da santidade cristã

Estes textos que ando redigindo me remetem a uma pergunta feita há alguns anos atrás por um aluno protestante. Questionou ele: O que é a santidade para Santo Tomás? Eu poderia simplesmente ter respondido: é uma união com Deus. Porém, eu não sabia. Por isso, fugi do assunto e desconversei. Nós somos filhos adotivos de Deus pela graça. É uma filiação intrínseca, pois a graça habitual é uma participação real, se bem que acidental, na natureza de Deus. A graça santificante adere à essência da nossa alma, tornando-nos, por assim dizer, consanguíneos de Deus. E, por isso mesmo, verdadeiros herdeiros de nosso Pai celeste e coerdeiros de Cristo, nosso Irmão maior e Salvador. E a herança que o nosso Pai quer nos dar é o melhor presente que Ele poderia nos dar, ou seja, Ele mesmo, o Bem Supremo. Em outras palavras ainda, o face a face. Logo, é justíssimo dizer com Santo Inácio: “O homem é criado para louvar, reverenciar e servir a Deus nosso Senhor, e por meio disto, salvar sua alma; e as outras coisas sobre a face da terra são criadas para o homem e para que o ajudem no alcance do fim para o qual é criado. Do que se segue que o homem há de usar delas tanto quanto o ajudem para seu fim, e deve privar-se delas tanto quanto para ele o impedem. Pelo que é mister fazer-nos indiferentes a todas as coisas criadas, em tudo o que é concedido à liberdade de nosso livre-arbítrio, e não lhe é proibido; de tal maneira que não queiramos de nossa parte mais saúde que enfermidade, riqueza que pobreza, honra que desonra, vida longa que vida curta e, por conseguinte, em tudo mais; somente desejando e elegendo o que mais nos conduz ao fim para o qual somos criados." (Inácio de Loyola. Exercícios Espirituais. n. 23. In: Royo Marín. Teologia moral para leigos. Trad. Welder Walmor Ayala. Rev. Fabio Florence. Rio de Janeiro: Ed. CDB, 2022. t. I. p. 69-70). Diante desta luminosa passagem de Santo Inácio tudo se descortina: nosso fim último não é outro que a visão de Deus. Nesta vida, este fim se realiza parcialmente pela união com Deus cada vez mais profunda. Não temos espaço e talvez nem competência para mostrar, com São João da Cruz, que esta união se realiza à medida que nos desapegamos daquilo que não é Deus. Deus é o próprio Ser, ser necessário e absoluto, ato puríssimo; tudo mais é ser contingente, por participação, seres caducos mesclados de potência. Em uma palavra, Deus é tudo e diante dEle as criaturas são como nada. Ora, dois contrários não podem subsistir num mesmo sujeito. Destarte, temos de escolher: ou Deus ou o apego às criaturas, inclusive a nós. Já adiantamos que isso só vai se resolver nas purificações passivas, isto é, operadas por Deus com o nosso consentimento, dos sentidos e do espírito, que se realizam em momentos diversos. Fiquemos com a nossa parte, com aquela que pode ser feita com a ajuda da graça ordinária. Sem esta, nem um pensamento salutar podermos ter, nem o nome de Jesus podemos pronunciar com dignidade. O que diz a metafísica da realidade, confirma-nos a Sagrada Escritura e a vida, máxime no que toca ao homem: “‘Tem a vida curta... foge como a sombra e não permanece' (Jó 14, 1-2). Pela manhã se levanta jubiloso; à tarde desaparece sem deixar rastro. Lá está seu quarto, sua mesa de trabalho; lá está seu leito onde ainda ontem repousou. Agora nada resta dele. ‘O tempo oportuno abreviou-se...., passa a figura deste mundo.' (1 Cor 7, 29-31)." (Royo Marín. Teologia da Perfeição Cristã. Trad. Dalton Zimmerman et al. Rev. Fabio Florence et al. 4 ed. Anápolis: Magnificat, 2020. p. 423-424). Ora, a visão do nosso presente não é nada alvissareira: “São legiões, por desgraça, de cristãos que não vivem assim [segundo Deus]. Absorvidos inteiramente sobre as coisas da terra, raras vezes erguem os olhos para o céu. Suas vidas são inteiramente humanas e naturais, sem horizontes sobrenaturais, sem ideias de perfeição, sem anelos de santidade. O principal, para eles, é a saúde corporal, o ganhar dinheiro, ampliar seus negócios, cercar-se de cada vez maiores comodidades. Alguns conseguem tornar-se milionários e se consideram felizes, sem se darem conta que muito rapidamente - talvez antes que suspeitam - descerão ao sepulcro e com isso terminará para sempre a grande farsa deste mundo." (Idem. Ibidem. p. 402). E nós, cristãos que se dizem mais sérios? Para sermos realistas com nós mesmos, quando não estamos em pecado mortal, estamos na sua antessala, a saber, o pecado venial deliberado. Mais um pouco e caímos no sepulcro do pecado mortal, o qual nos tira a graça, a caridade, os dons e os méritos, além da inabitação trinitária. Só nos deixa a fé e a esperança informes. E não temos nenhuma garantia que Deus nos concederá um arrependimento tão forte pelo qual possamos, com o selo da absolvição sacramental, recuperar, na mesma medida, a graça, os dons e os méritos que perdemos. Sejamos imensamente gratos a Deus se Ele se dignar a nos dar um arrependimento suficiente para conseguirmos esses bens ainda que em graus menores... Por isso fujamos do desastre do pecado venial deliberado pela oração e comunhão sacramental, na qual a Trindade, pelo mistério da circumincessão, vem a nós. Lembremos as palavras de Santo Afonso sobre os condenados: viverão na eterna agonia de saber que poderiam se salvar mediante uma vida de oração. Digamos vida de oração, porque esta tem de exalar o seu bom odor em toda a nossa vida. Como diz Tissot, a oração não pode ser um objeto que se guarda numa gaveta, num compartimento isolado da nossa vida. Terminemos com as palavras do Pe. Royo Marín: “É tão grave, de fato, a malícia do pecado venial enquanto ofensa a Deus, que não deveria ser cometido mesmo que pudéssemos tirar todas as almas do purgatório e ainda extinguir para sempre as chamas do inferno." (Idem. Ibidem. p. 267). Busquemos, com a graça, a Deus, nosso fim último, e nos valhamos da lei do movimento uniformemente acelerado, isto é, quanto mais O buscarmos e mais perto estivermos dEle, mais forte e rapidamente Ele nos atrairá a si.

Da contemplação e perfeição cristã

A nossa alma é uma substância incompleta (isto é, feita para unir-se ao corpo) que, em sua essência, não é imediatamente operativa. Aliás, uma substância cuja essência fosse imediatamente operativa seria seu próprio ato e, como o agir segue o ser, seria seu próprio ser, o que pertence somente a Deus (Ipsum Esse Subsistens). No entanto, da essência da nossa alma emanam potências ou faculdades operativas, quais sejam, as faculdades sensíveis (sentidos internos e externos) e intelectivas (intelecto e vontade). Com a graça santificante dá-se algo análogo. Ela é um acidente (qualidade) que está na essência da alma do justo. Também ela não é imediatamente operativa, mas dela dimanam para as potências ou faculdades da alma as virtudes infusas (teologais e morais) e os dons do Espírito Santo (Falamos dos dons de Isaías 11, 2. Eles não se confundem com os carismas de primeira Coríntios 12! Estes últimos são graças gratuitamente dadas [gratiae gratis datae] para a edificação da Igreja e podem se manifestar, eventualmente, até em alguém que esteja em pecado mortal). A contemplação é um ato, antes de tudo, intelectivo (intelecto especulativo), mas que procede, de certa forma, de um ato da vontade. Ela consiste na intuição, por ação do dom do entendimento, de uma verdade de fé. Assim, a contemplação não é senão a penetração do intelecto numa verdade de fé ou nas verdades de fé, tendo destas verdades um conhecimento experimental e saboroso. Quando ocorre durante a purificação passiva do espírito, não há sabor, senão aridez. O conhecimento que se dá na contemplação não é o da visão face a face, o qual só seria possível com a luz da glória (lumen goriæ), mas, como dissemos, um conhecimento experimental, uma espécie de conaturalidade com as coisas divinas. Quanto à substância, o que na contemplação conhecemos provém da virtude da fé e não de supostas espécies infusas. O que ocorre é que pela atuação intensa dos dons intelectivos (entendimento, sabedoria e ciência) esse conhecimento é sobre-humano, saboroso e experimental. O dom do conselho não atua, porque este aperfeiçoa a virtude infusa da prudência, a qual pertence ao intelecto prático e não ao especulativo. Para sermos mais precisos então, digamos que a contemplação ocorre no intelecto possível, não no agente, pois é no intelecto possível que, pelas ou nas espécies inteligíveis, conhecemos as coisas. Porém, para sermos mais exatos ainda, digamos que a contemplação recai sobre os juízos afirmativos não discursivos da fé. A vontade é importante aqui, porquanto é por ela que, sob a direção de uma profunda caridade (amor), aplicamos o nosso intelecto à contemplação. É por ela também que permanecemos em contemplação e deleite. A rigor é Deus quem dá a contemplação: quando e a quem quiser. Requer-se, inclusive, uma graça atual proporcional aos dons para tanto. Entretanto, podemos e devemos nos dispor a ela, com a ajuda da graça ordinária. Ademais, a contemplação é um fenômeno que ocorre na oração e comporta graus. É meritório, e é bom que se diga isso, porque, ainda que seja um dom de Deus, nossa vontade e nosso intelecto também atuam, como temos visto. Deus não pratica violência quando nos move! Sem querer entrar em detalhes, digamos que, no grau de recolhimento infuso, o raciocínio é cativado; na quietude, Deus cativa a vontade; quando há o sono das potências, o intelecto é cativado. Já na oração de união, a imaginação e a memória são cativadas por Deus e no desponsório espiritual ou união extática até os sentidos exteriores são cativados. Nesta fase ocorrem os êxtases. Enfim, no matrimônio espiritual se consuma a união (o tanto que é possível nesta vida) não propriamente ontológica, mas no modo de operar entre Deus e a alma. Destarte, a alma pode dizer que ela já não vive — embora não perca a liberdade —, mas é Cristo quem vive nela (Gl 2, 20). Santo Tomás de Aquino fala desta divinização por participação deste modo: é como o ferro que, sem deixar de ser o que é, adquire as propriedades do fogo quando é exposto a ele. Não há propriamente confirmação na graça, mas uma assistência especial de Deus para que a alma não peque mais mortalmente ou mesmo cometa um pecado venial deliberado. Doravante, a alma não pensa mais nela, senão na glória de Deus e na salvação das almas. Por isso quer viver, como diz Santa Teresa, até o fim do mundo para colaborar na salvação das almas. Outrossim, Santo Inácio de Loyola diz querer viver mais, com o risco de se condenar, para ajudar a salvar mais almas. Santa Teresa esfrega as mãos quando está sendo caluniada, injuriada e difamada. Sofre quando vê seus detratores sofrerem e quer que o Senhor dê a eles um pouco das graças que dá a ela, a fim de que não se percam. A santa indiferença de Santo Inácio é vivida plenamente, pois a alma, sabendo então que a vontade manifesta e a de beneplácito de Deus são boníssimas, faz da vontade de Deus a dela, posto que só assim sabe com certeza que a sua será boa. Assim, saúde ou doença, riqueza ou pobreza, vida longa ou vida curta, o que importa? O que importa é unicamente a maior glória de Deus! Jamais a alma renuncia a sua própria salvação, senão que já vive o prelúdio da vida do Céu. O bicho-da-seda finalmente se transformou em bela borboleta. Já não há êxtase, porque a alma se acostumou com a presença do esposo. É deste matrimônio espiritual, afinal, como de um supremo analogado, que procede o nome que damos ao nosso matrimônio, e não o contrário. A quem Deus chamou a estas alturas? Rigorosamente a todos, pois só os que chegam a este sublime matrimônio entrarão imediatamente no Céu logo após a morte. Dizer que Deus chamou só alguns é dizer que Ele, a priori, destinou almas ao purgatório e não ao Céu, o que soaria muito irreverente. Ao contrário, este é o desenvolvimento natural da vida da graça para todos os batizados. Diz São João da Cruz: “Porque estes [os transformados, os deiformes], que são poucos, porquanto já pelo amor estão purgadíssimos, não entram no purgatório. De onde São Mateus (5,8) diz: ‘Bem-aventurados os puros no coração, porque eles verão a Deus.'" (João da Cruz. Noite 11, 20, 5. In: Royo Marín. Teologia da Perfeição Cristã. Trad. Dalton Zimmerman et al. Rev. Flávio M. P. Gomes. 4 ed. Anápolis: Magnificat, 2020. p. 689). Se há poucos escolhidos, é porque há muitos infiéis à graça: “Todo cristão deveria percorrer esta escala de oração até o ápice. A santidade está ao alcance de toda alma que seja verdadeiramente fiel à graça e generosa no serviço de Deus. A ninguém é fechado o caminho dos mais altos cumes da união mística com Deus. A mística não é um estado extraordinário reservado para uns poucos aristocratas do espírito; entra, pelo contrário, no desenvolvimento progressivo e normal da graça santificante em toda alma fiel e generosa. A união transformante com Deus deveria ser o prelúdio normal da visão beatífica, alcançado neste mundo por todos os fiéis batizados. Tal é o ensinamento claríssimo de Santa Teresa e de São João da Cruz, plenamente de acordo com os princípios mais firmes da teologia católica." (Royo Marín. Teologia moral para leigos. Trad. Welder Walmor Ayala. Rev. Fabio Florence. Rio de Janeiro: Ed. ODC, 2022. t. I. p. 441).

Do nosso organismo sobrenatural

Recebemos a graça santificante no Batismo como gérmen da glória, participação real, porém acidental, na natureza divina. Juntamente com a graça vêm as virtudes infusas (teologais e morais) e os dons do Espírito Santo, além da inabitação trinitária. Como todo gérmen tende a crescer e se desenvolver, também este. Ele cresce pela recepção frutuosa dos sacramentos, pela oração e pela prática das virtudes comandadas ou informadas pela caridade. No sacramento da Eucaristia, por exemplo, recebemos o próprio autor da graça. Tornamo-nos mais sagrados do que o cibório e até do que os próprios acidentes do pão e do vinho, porque o Cristo pode nos transformar nEle já durante a manducação. Somos seres racionais e volitivos. Na oração, entre outras coisas, podemos pedir a graça da perseverança final, que não pode ser merecida porque recai sobre o princípio do mérito, que é a graça santificante. É absurdo merecer o princípio de todo merecimento. Podemos orar também pedindo graças atuais mais intensas. De fato, não sendo os hábitos infusos adquiridos por nós, mas infusos justamente por Deus, temos de pedir graças atuais para que eles passem a ato. Outrossim, como a graça santificante é uma qualidade e não uma quantidade, para ela e as virtudes crescerem (as virtudes também são realidades qualitativas), não basta a adição de atos, mais sim um aumento qualitativo do fervor. Aumentando a caridade ou qualquer outra virtude, por uma graça atual mais intensa, aumentam-se a graça habitual e todas as virtudes e dons, porque eles estão conexos. Crescem todos juntos como os dedos da mão (Santo Tomás de Aquino). Somente que as virtudes, em si mesmas perfeitas e sobrenaturais, são como forçadas a se adaptarem ao nosso modo humano de agir. Quando predomina esse modo humano de agir, temos a vida ascética. Quando, pela vida de oração, predomina a ação dos dons do Espírito que aperfeiçoam estas virtudes (aperfeiçoam só o modo, porque as virtudes teologais, por exemplo, são mais perfeitas do que os dons), dando a elas o modo sobre-humano e divino, temos a vida mística e o começo da santidade propriamente dita, que atinge seu cume no desposório e matrimônio espiritual. Deve-se dizer que, assim como no estado ascético há atos místicos, no estado místico há atos ascéticos. Na ascese somos mais ativos; na mística, mais passivos. O que importa mesmo é que à santidade todo cristão é chamado. Aliás, é preceito. A santidade é o desenvolvimento normal da vida da graça. Os fenômenos extraordinários que a acompanham não são necessários. Temos de pedir ainda na oração para o Espírito Santo agir em nós, aperfeiçoando quanto ao modo as virtudes. Como se vê do sobredito, está certíssimo Santo Afonso ao dizer: “Quem reza se salva; e quem não reza, não se salva." A oração, por promessa de Nosso Senhor, feita com as devidas disposições, é infalível quanto à salvação e ao grau de santificação para o qual nos chamou o Senhor. Novamente está corretíssimo Santo Afonso quando diz do pecador que ora ardentemente: “ou deixará a oração ou deixará o pecado.” Mas a oração já não provém da graça? Sim. Por isso, entende-se por que Royo Marín afirma: “Segue-se, portanto, que o espírito de oração é um grandíssimo sinal de predestinação. E que a indiferença e a inimizade para com a oração é um sinal negativo, verdadeiramente temível, de reprovação." (Royo Marín. Teologia da Perfeição Cristã. Trad. Dalton Zimmerman et al. Rev. Flávio M. P. Gomes et al. 4 ed. Anápolis: Magnificat, 2020. p. 575). Santa Teresa de Jesus chama as almas que não chegam nem ao menos ao grau de meditação na oração de “almas aleijadas". Devemos orar não só por nós, mas entre outros, também pelos nossos, sabendo que na oração não buscamos a nossa vontade, senão a vontade de Deus. O que adianta ser feliz setenta anos nesta vida, mas depois padecer para sempre no inferno? Por isso, antes morrer do que pecar (São Domingos Sávio) mortalmente! E que dizer do pecado venial deliberado, senão que é a antessala do mortal? Todos nós somos ex-prisioneiros de Satanás. O pecado é uma ofensa a Deus! De tudo isso se depreende que: “E assim seria lícito, com a devida submissão à vontade de Deus, desejar a morte para si, ou desejá-la ao próximo, para livrar-se dos perigos de pecar, ir para o Céu, etc. Ou também desejar uma enfermidade que nos impedisse de pecar, ou a perda dos bens materiais que se empregam nos vícios e pecados, etc." (Royo Marín. Teologia Moral para Leigos. Trad. Welder Walmor Ayala. Rev. Fabio Florence. Rio de Janeiro: Ed. CDB, 2022. t. I. p. 330). Não há maior tragédia neste mundo do que o pecado mortal! E, para nossa vergonha, temos caído nesta desgraça. São Luís Gonzaga, mesmo tendo só faltas levíssimas, desmaiava ante seu confessor, por horror ao pecado. Sejamos dóceis à graça suficiente de cada momento, porque nela está a graça eficaz, como o fruto na flor.

Sobre a graça santificante

A graça santificante, que está na substância da alma (em estado de graça) como um acidente (qualidade), é uma participação física, como a luz da lua participa da do sol, e formal, ou seja, real, na natureza de Deus, na vida íntima de Deus. É como se o sangue de Deus corresse em nossas veias. É chamada também de graça habitual e graça das virtudes e dos dons, que nos dá verdadeiramente um organismo sobrenatural capaz de, com o auxílio das graças atuais, praticar atos que mereçam a vida eterna, vale lembrar, quando procedentes do império da caridade infusa. Além disso, a graça santificante nos dá a inabitação das pessoas divinas. Sendo assim, ela é verdadeiramente a vida eterna começada e o princípio da nossa deificação. Daí que “O menor grau de graça santificante que se encontra na alma de um único homem ou de uma criança — diz Santo Tomás — é incomparavelmente mais precioso que todas as naturezas criadas corporais e espirituais somadas." Diz ainda o santo Doutor, acerca de um só ato meritório sobrenatural, isto é, feito em estado de graça: “(...) o bem de um só na ordem da graça é superior ao bem de todo o universo na ordem natural." Pascal também fala do ato sobrenatural realizado sob o império da caridade: “Todos os corpos, o firmamento, as estrelas, a Terra e seus reinos não valem o menor dos espíritos, pois ele conhece tudo isso e a si mesmo; e os corpos, nada. Todos os corpos somados, e todos os espíritos somados, e todas as suas produções, não valem o menor gesto de caridade, que é de ordem infinitamente mais elevada. De todos os corpos somados, não poderíamos fazer articular-se o menor pensamento: é algo impossível, de outra ordem. De todos os corpos e espíritos, não poderíamos extrair uma verdadeira caridade: é algo impossível e de outra ordem, sobrenatural." (Garrigou-Lagrange. Deus, sua existência e sua natureza. Trad. Roberto Leal. Rev. Luiz Fernando. São Paulo: Molokai, 2020. t. II p. 42-43). Assim, por exemplo, uma simples catequese do Cura d'Ars feita com caridade vale infinitamente mais do que todas as mais altas especulações teológicas juntas, feitas o mais das vezes com menor ou nenhuma caridade. Ora, o pecado mortal nos faz perder esta vida divina. Ele nos torna cadáveres espirituais. Pedir para um pecador que pratique um ato capaz de merecer a vida eterna é como pedir a um cão para que faça um ato deliberado. Por isso, todos os santos de Deus estão ensanguentados, vale dizer, por lutarem para não perder o estado de graça. A Confissão sacramental, quando acompanhada de salutar arrependimento (fruto de uma graça atual), no-lo devolve. Vale a pena partilhar a reflexão a seguir: “Não há catástrofe nem calamidade pública ou privada que possa se comparar com a ruína que ocasiona na alma um só pecado mortal. É uma desgraça que merece propriamente tal nome, e é de tal magnitude, que não se deve cometê-lo jamais, ainda que com ele se pudesse evitar uma terrível guerra internacional que ameaçasse destruir a humanidade inteira, ou libertar todas as almas do purgatório ou do inferno. É sabido que, segundo a doutrina católica — que não pode ser mais lógica e razoável para todo aquele que, tendo fé, tenha, ademais, bom senso —, o bem sobrenatural de um só indivíduo está acima e vale infinitamente mais que o bem natural da criação universal inteira, já que pertence a uma ordem infinitamente superior: a da graça e da glória. Assim como seria uma loucura que um homem se entregasse à morte para salvar a vida de todas as formigas do mundo — vale mais um só homem que todas elas juntas — do mesmo modo seria uma grande loucura e cegueira que um só homem sacrificasse o seu bem eterno, sobrenatural, para salvar o bem temporal e meramente humano da humanidade inteira: não há proporção alguma entre um e outro. O homem tem obrigação de conservar sua vida sobrenatural a todo custo, ainda que se afunde o mundo inteiro." (Royo Marín. Teología de la salvación. In: Royo Marín. Teologia moral para leigos. Trad. Welder Walmor Ayala et al. Rev. Fabio Florense. Rio de Janeiro: Ed. CDB, 2022. t. I. p. 308).

Do nosso fim último

Deus criou todas as coisas para Ele, para que O glorifiquem, para a sua glória extrínseca. O ser humano é o pontífice, o sacerdote da criação. De fato, quando ergue os seus lábios em louvor a Deus é também em nome de toda a criação que o faz, pois as criaturas só podem louvar a Deus sendo o que são. Contudo, como quis Deus elevar o homem a uma ordem sobrenatural, só glorificaremos a Deus de forma perfeita mediante a nossa santificação, sobretudo quando estivermos na visão beatífica, face a face. Donde se segue: “Das conclusões que acabamos de assentar se deduz com toda clareza e evidência que a vida do homem sobre a terra não tem senão uma finalidade suprema: preparar-se para a felicidade eterna e completa na clara visão e gozo fruitivo de Deus. Não nascemos para outra coisa nem tem nossa vida terrena outra razão de ser que não seja alcançar a vida e a felicidade eternas." (Royo Marín. Teologia Moral para leigos. Trad. Welder Walmor Ayala. Rev. Fabio Florense. Rio de Janeiro: Ed. CDB, 2022. t. I. p. 68.). Pois bem, o pecado mortal nos desvia deste fim, faz-nos perder a graça santificante e a amizade com Deus. É, pois, uma tragédia para a alma. Como a graça é o começo da vida eterna, o pecado mortal o é da morte eterna: “O pecado mortal — diz Royo Marín — é o inferno em potência, e o que os separa é o fio da vida, que é a coisa mais frágil e quebradiça do mundo." (Royo Marín. Teologia moral para leigos. t. I. p. 58.). Noutro lugar: “Com efeito, nada deveria preencher de tanto horror o cristão como a possibilidade de perder esse tesouro divino [a vida íntima de Deus em nós] pelo pecado mortal. As maiores calamidades e desgraças que possamos imaginar no plano puramente humano e temporal — enfermidades, calúnias, perda de todos os bens materiais, morte dos entes queridos, etc... — são brincadeiras e causa de riso se comparadas com a terrível catástrofe que representa para a alma um só pecado mortal, pois nesse caso a perda é absoluta e rigorosamente infinita." (Royo Marín. Teologia da Perfeição Cristã. Trad. Flávio M. P. et  al. 4  ed. Anápolis, Magnificat, 2020. p. 66). Ora, do pecado mortal só podemos nos libertar pelo Batismo e, depois, pela Confissão sacramental. Preparemo-nos, pois, pedindo a Deus um salutar arrependimento e confiemos na sua onipotência auxiliadora.

Sobre a graça

Dois princípios básicos. 1— Deus nunca ordena o impossível. Se ele quer que todos os homens se salvem, ele dá a todos a graça suficiente para tanto. O que acontece é que, em razão da nossa natureza defectível, podemos resistir à graça. Ora, Deus não está obrigado a remediar o defeito natural, embora às vezes o faça. 2 — Não haveria homens melhores do que outros, se Deus não os amasse mais, porque o amor de Deus é a causa da bondade das coisas. Assim, um homem não resistiria à graça enquanto outro sim, se Deus não amasse mais o primeiro, para dar a ele uma graça eficaz que movesse a sua vontade (sem violentá-la) para o bem. É que Deus age de acordo com o modo de cada natureza. No homem, por exemplo, ele move a sua vontade livre ao consentimento sem violentá-la. Ele tem esse direito, pois é o primeiro motor, a primeira liberdade e, na ordem da salvação (e também na natural pelo concurso divino), sem Ele nada podemos fazer. É ele quem opera em nós o querer e o executar. Na verdade, Deus, desde toda a eternidade, já predestinou infalivelmente os que seriam salvos, sem negar a graça suficiente a nenhum dos homens e sem eliminar a liberdade, ou seja, a contingência dos nossos atos. Ademais, não são inúteis as orações e sacrifícios, pois são meios que Deus dispôs, desde toda a eternidade, para que chegássemos à salvação. Ora, do quanto dissemos se deduz, por exemplo, que Pedro PODERIA se perder, mas não se danaria de fato, enquanto Judas PODERIA se salvar, mas acabaria condenado de fato, pois Deus não está obrigado a remediar a nossa defectibilidade sempre. Pois bem, por que Deus escolhe este em vez daquele? Mistério! Abandonemo-nos total e inteiramente à Providência Divina. É muito mais seguro que a nossa a salvação esteja nas mãos da Providência do que na nossa. Além disso, não podemos reclamar que a salvação esteja nas mãos de Deus... Afinal, não é Ele o salvador? Enfim, o que temos que não tenhamos recebido? Por fim, ninguém conhece, salvo por revelação especial, se é predestinado. (Garrigou-Lagrange. Deus, sua existência e sua natureza. Trad. Roberto Leal. Rev. Luiz Fernando et al. São Paulo: Molokai. t. II.). * Vide o tratado sobre a liberdade divina e os apêndices. Como Cristo não morreu somente pelos predestinados, e não sabemos quem são os eleitos, urge evangelizar, acima de tudo porque Ele nos enviou. Por isso, aos missionários da Igreja, sobretudo aos que realizam o seu apostolado em terras distantes, dando as suas vidas pela salvação e pela santificação das almas, oferecemos este belo e comovente testemunho: “Quando Mons. Le Roy assistia, nos primeiros anos de seu apostolado na África Oriental, a um missionário moribundo, este lhe disse: ‘Minha vida termina... Estou feliz pelo uso que fiz dela'. A seguir, subitamente seus olhos fixaram-se imóveis em um ponto do espaço, enquanto seu rosto se transfigurava. ‘Padre — perguntou o Monsenhor — que é que estás vendo?' ‘Vejo, respondeu, uma grande procissão de negros que desce do céu... Acho que são os que eu batizei...; vêm buscar-me...'. E dizendo isso expirou." (Royo Marín. Teologia da Perfeição Cristã. Trad. Flávio M. P. Gomes et al. 4 ed. Anápolis: Magnificat, 2020. p. 313).

Aos médicos

Antes de tudo, quero dizer que todos os médicos que frequento me assistem excelentemente. A eles a minha mais profunda e total gratidão e respeito. Dito isso, é preciso que o médico seja prudente. Neste sentido, é mister que tenha uma boa memória das coisas passadas, um olhar circunspecto do presente, uma capacidade de antever algo do futuro (previdência) e uma docilidade para ouvir os anciãos (médicos). Isso é necessário porque a deliberação precede a ação e quem age sem pensar é semelhante a alguém que, em vez de descer os degraus de uma escada, pula-os e se esborracha no chão. Daí a importância da formação do médico não ser predominantemente remota. O caráter do postulante deve ser atentamente observado. Diz Garrigou-Lagrange: “Por exemplo, um estudante de medicina se entrega gravemente à preguiça, mas, por acaso, é diplomado médico, mesmo ignorando muitas coisas elementares do trabalho que deveria conhecer. E acontece-lhe de acelerar a morte de alguns de seus pacientes, em lugar de os curar. Não existe aí um pecado diretamente voluntário, mas há com certeza uma falta indiretamente voluntária, que pode ser grave, e que pode chegar ao homicídio por imprudência ou grave negligência." (Garrigou-Lagrange. As três idades da vida interior. Trad. Antonio Carlos Santini et al. 2 ed. Cultor de Livros: São Paulo, 2021. t. I. p. 376). O envenenamento do sangue deve ser combatido a todo custo. Uma prata misturada com estanho ou cobre fica impura. Contudo, se ela se misturar com ouro, se enobrece. Assim nosso sangue e organismo. Quando a eles se misturam drogas que tenham o que lhes é benéfico e o que lhes falta por alguma morbidade, enobrecem-nos. Quando, porém, são desnecessárias ou prejudiciais a eles, torna-os impuros. Daí a importância da pesquisa e da dosagem da droga. Outrossim, um caso em que a cirurgia salva o órgão, mas empobrece a qualidade de vida do paciente, deve ser estudado melhor. Afirma Royo Marín: “O médico ou advogado, etc., que prejudica seu cliente em sua saúde ou bens por não haver se dado ao trabalho de estudar melhor sua enfermidade ou pleito, peca por ignorância culpável, ainda que não tanto como se o houvesse prejudicado de modo totalmente deliberado." (Royo Marín. Teologia Moral para Leigos. Trad. Welder Walmor Ayala et al. Rev. Fabio Florence. t. I. p. 98). Por fim, o médico nunca deve esconder do paciente seu estado. Deve, se for o caso, alertá-lo, com o devido cuidado (rezar antes e depois), que o seu tempo de vida se abrevia e que vai morrer. Isso é, além de tudo, um ato de caridade. Neste sentido, os hospitais deveriam ter sempre presente um padre de plantão, para que os moribundos crentes, os agonizantes se emendem e morram consolados e em estado de graça: “É uma falta de fé não advertir os enfermos que irão morrer, e mais do que isto: é um erro; os enganam e os impedem assim de se preparar. É bom fazer um acordo com alguém para que se advirtam mutuamente." (Garrigou-Lagrange. O homem e a eternidade. A vida eterna e a profundidade da alma. Trad. José Eduardo de Barros Carneiro. Rev. José Lima. Campinas: Ecclesiae, 2018. p. 72). Dedico este texto ao saudoso padre Garrigou-Lagrange, O. P., que, antes de ser padre, cursou um tempo de medicina. Santo Tomás, cujas lições tanto usei neste texto, rogai por nós!

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