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Teologia da santidade para Leigos III

(I)                O crescimento espiritual em sabedoria

A vida da graça nós a recebemos no Batismo em forma de germe ou semente. Como a vida natural, também a espiritual tende a crescer e a se desenvolver. Em analogia com a vida de nosso Senhor e modelo supremo de todas as virtudes, também a nossa vida pode e deve crescer em sabedoria, idade e graça diante de Deus e diante dos homens (Lc 2, 52). Comecemos pelo crescimento em sabedoria. Para entendê-lo, precisamos arriscar uma síntese sobre os graus do conhecimento natural, pois o sobrenatural segue as mesmas leis. O primeiro grau do conhecimento natural é o sensível, que diz respeito a realidades particulares e concretas e que se resume naquele conhecimento que obtemos pelos cinco sentidos externos (visão, audição, olfato, paladar e tato) e pelos internos (sentido comum, imaginação, memória sensível e estimativa ou  cogitativa). Não obstante um pouco mais requintado no homem, posto que já de algum modo influenciado pela razão, este conhecimento não excede, quanto à essência, ao conhecimento dos animais. Ora, são muitos dos nossos contemporâneos que lamentavelmente param nesse nível quase animalesco de conhecer e de querer: “Para eles, não há maior prazer do que um jogo de futebol, um filme, uma representação teatral, um espetáculo deslumbrante para os sentidos. Ávidos por emoções, dificilmente gostam de outra coisa senão daquilo que possa excitar sua sensibilidade; cansam-se e se entediam com tudo o que esteja relacionado à vida do espírito” (Royo Marín. Jesus Cristo e a vida cristã. Trad. Ricardo Harada. Rev. Juliana Amato. São Paulo: Ecclesiae, 2020. p. 641). Acima do conhecimento sensível está o conhecimento racional vulgar. Este já é capaz de alcançar o universal e o abstrato, porém desconhece-lhes a causa. Assim, o homem do campo sabe o que é a chuva e o que ela representa para a sua colheita, mas escapa-lhe os “porquês” científicos destes fenômenos acontecerem. Contudo, não precisamos desesperar da salvação deles, pois “(...) a santidade é amor e, como Santo Tomás ensina, o amor pode ser muito superior ao conhecimento, porque é perfeitamente possível amar o que é imperfeitamente conhecido” (Idem. Op. Cit. p. 643). Destarte, quando nos entretivermos com estes irmãos, precisamos prender-lhes a atenção sobretudo pelos afetos. O terceiro nível do conhecimento é o científico, que Aristóteles muito bem definiu como um conhecimento certo e evidente das causas próximas das coisas. Tampouco é necessário que todo crente conheça a ciência teológica para alcançar a salvação e a santificação: “Uma criança que sabe de cor o Catecismo sabe incomparavelmente mais sobre Deus do que os maiores sábios e filósofos que a humanidade conheceu através dos séculos na ordem e plano puramente naturais” (Idem. Op. Cit. p. 644). Há, ademais, no plano natural, o que podemos chamar de conhecimento sapiencial, o qual consiste no conhecimento das coisas a partir das suas causas últimas e supremas. Tendo assim aferido os graus ou níveis do conhecimento natural, podemos passar para os da ordem sobrenatural, mil vezes acima, para dizer o mínimo, do mais alto conhecimento puramente humano alcançado ou alcançável: “Os sábios de todo o mundo, investigando por milhões de anos a essência das coisas criadas, não acertariam jamais em nos dar as menores informações sobre o mundo sobrenatural” (Idem. Op. Cit. p. 645). O primeiro grau do conhecimento sobrenatural assemelha-se, sob certo aspecto, ao conhecimento racional vulgar e podemos chamá-lo simplesmente de fé. O Padre Garrigou-Lagrange, na sua obra-prima espiritual, As três idades da vida interior (Trad. Antonio Carlos Santini et al. 2 ed. Cultor de Livros: São Paulo, 2021. 2 v), surpreendia-se ainda com o fenômeno que o rádio da sua época lhe trazia, qual seja, poder ouvir em Roma uma sinfonia executada em Viena. Pois bem, dizia o insigne teólogo, a fé nos dá a conhecer uma sinfonia espiritual que tem a sua origem no Céu. Outrossim, acentuava que este conhecimento é simplesmente um dom de Deus, que o infunde em nós; além disso, é certíssimo, porque fundado no Deus que se revela e que não engana nem pode enganar-se, e é, afinal, de fácil apreensão, porque nos vem pelo ouvir. O segundo grau do conhecimento sobrenatural é o teológico. A teologia, na verdade, não sai do domínio do revelado. Como notam os próprios teólogos, a teologia busca expressar as verdades implicitamente reveladas contidas nas verdades explicitamente reveladas. É por isso que todo conhecimento teológico é uma “explicação da fé” (explicatio fidei) (Padre Marín Sola. La evolución homogénea del dogma católico) e as conclusões da sã teologia são conclusões que, se já não foram definidas, são perfeitamente definíveis quando a Igreja julgar oportuna a sua definição. Deve-se notar, como faz ver o Padre Francisco Pérez Muñiz, que o assentimento teológico difere do da fé pura; esta última se baseia unicamente no Deus que se revela, já o assentimento teológico, uma vez que provém de um raciocínio elaborado sobre o dado revelado, não é fundado nem unicamente no Deus que se revela, por causa da intervenção do raciocínio, nem unicamente na razão natural (como o da teodiceia, por exemplo), porquanto o objeto do raciocínio é um dado revelado. Destarte, temos aqui um conhecimento realmente divino-humano, porque a teologia parte da verdade de fé explicita para exprimir uma conclusão que estava implícita nela: “É por isso que a fé é um conhecimento divino das coisas divinas, participado no homem. A teologia, no entanto, é um conhecimento divino-humano das coisas divinas” (Royo Marín. Op. Cit. p. 649). Pois bem, a teologia pode diminuir o mérito da fé, sobretudo no que toca aos preambula fidei da Apologética? De forma alguma. Os preâmbulos da fé visam apenas atestar que o que consta na Escritura e na Tradição e é proposto pela Igreja é realmente a revelação de um Deus existente e sumamente verdadeiro. O assentimento que vem posteriormente a isso se dá em virtude tão somente da autoridade do Deus revelante e sempre suposta a moção prévia da graça. Tampouco a teologia em si mesma diminui o mérito da fé, porque ela não se propõe, conforme vimos, a demonstrar os mistérios da fé, mas, antes, a ampliá-los de certa forma, mostrando explicitamente realidades antes apenas implicitamente contidas neles. O último grau possível ao conhecimento sobrenatural alcançável nesta vida é o conhecimento místico, advindo dos dons intelectuais do Espírito Santo. O filósofo católico Jacques Maritain (Le dégrés du savoir) nos ajuda a desvendar algo do mistério. Há duas maneiras, diz Santo Tomás, de julgar as coisas. Tomemos a castidade como exemplo. O moralista vai conhecê-la e julgá-la por meio da ciência moral que adquiriu e tudo aquilo que disser será de acordo com os tratados dos melhores moralistas e da própria ciência que adquiriu. É, pois, um conhecimento científico. Ora, outra maneira de conhecer e julgar acerca da castidade é possuindo-a como que encarnada em nossa faculdade apetitiva correspondente. Assim, quem a possui, responderá a quem quer que lhe pergunte sobre a castidade, por certo instinto de quem possui a própria virtude ou hábito, que se tornou nele como uma segunda natureza. Será um conhecimento por conaturalidade. Algo análogo se dá em relação a Deus. Por meio da graça santificante nós nos tornamos participantes da natureza divina e Deus passa a estar em nós como Pai e amigo. Pois bem, pelo hábito operativo da caridade nós experienciamos a Deus em si mesmo em nós, como um face a face às escuras (o último véu só será tirado no Céu), e assim nos conaturalizamos com Ele. Pelo dom da sabedoria, estre entreter-se se transforma numa espécie de regra pela qual tudo conhecemos e julgamos à luz desta experiência que temos com a Deidade em nós. E este é, dito de modo sucinto, o conhecimento místico. Acima deste conhecimento só a visão beatífica que, pelo lumen gloriae, dar-nos-á um face a face direto e imediato com Deus. Mas como crescer em sabedoria? Antes de tudo, é preciso desprezar o mundo, pois este possui o triste privilégio de chamar o bem de mal e o mal de bem: “Chama de bens o que em verdade são verdadeiros males; e chama de males o que na realidade são bens ou podem facilmente se tornar verdadeiros bens. O mundo mede sua felicidade suprema nos prazeres, riquezas, honrarias, confortos, entretenimento, em gozar de boa saúde, em não adoecer nunca, em viver por muitos anos, etc., etc.” (Idem. Op. Cit. p. 655). Jamais, por exemplo, o mundo entenderá e aceitará o Sermão da Montanha, no qual podemos entrever como um pequeno tratado da vida segundo Deus ou à luz de Deus: “Uma coisa é inteiramente clara e certa: Deus prefere a pobreza à riqueza; a humildade ao fausto e a ostentação; o silêncio e escuridão ao ruído e brilho falacioso diante do mundo. O Evangelho é claro demais para que tenhamos a menor dúvida sobre isso” (Idem. Op. Cit. p. 704). Disso decorre espontaneamente que, aos olhos de Deus, ter nascido pobre é "meio caminho andado" para a santidade e que a opulência da riqueza é um "mau começo" para quem aspira à santidade: “O cristão que teve a felicidade de ter nascido pobre facilitou em larga medida a tarefa da sua própria santificação: basta que ele una a sua pobreza à de Cristo, não com resignação [o pauperismo é pestilento!], mas com verdadeira alegria de se assemelhar a ele. (...). Embora o mundo seja incapaz de compreender essas coisas (...) é muito certo que nascer pobre é uma das maiores graças e bênçãos que o homem pode receber de Deus, contanto que entenda e agradeça (...)” (Idem. Op. Cit). Quão longe estão da sabedoria e vontade santíssimas de Deus aqueles que oram pedindo principalmente saúde, longos anos de vida, ou que seus filhos tenham um futuro brilhante, que os seus negócios andem bem sempre, que sejam muito felizes neste vale de lágrimas: “Nós devemos definitivamente perceber que o ‘principal’ não é a saúde do corpo, mas da alma; não o futuro humano dos filhos, mas o futuro eterno deles; não que os negócios temporais estejam indo bem, mas sim o grande negócio de nossa santificação; não que sejamos felizes na Terra durante os setenta ou oitenta anos dessa pobre vida, mas por toda a eternidade no Céu” (Idem. Op. Cit. p. 656). Ora, “E como para alcançar todos esses grandes e verdadeiros bens, a pobreza, a doença, a dor, a humilhação, etc., etc., são muito mais úteis, vamos manter firme e energicamente, contra todo parecer do mundo inteiro, que são melhores todas essas coisas, as quais o mundo tanto odeia, do que as riquezas, prazeres, confortos, grandezas, etc., etc., as quais o mundo tanto ama” (Idem. Op. Cit.). Ratificamos que tudo isso dissemos ou subscrevemos supondo o trabalho da graça e o propósito do homem cooperando com a graça, pois do contrário todos os pobres, doentes e sofredores seriam santos, o que não se verifica. Mas prossigamos. Outra coisa que se deve fomentar entre os católicos é o senso cristão. Este, como adverte o Padre Vilariño (Caminos de vida), não é bem a fé cristã, mas exatamente o que dissemos: o senso cristão. Ele é como um “sexto sentido” que nos é dado. Assim como acontece com os demais sentidos exteriores, que institivamente e com uma rapidez que nos escapa, apreende sem chance de erro o seu objeto próprio, assim acontece com o senso cristão que, sem raciocínio, intui o que é cristão e o que não é, o que pertence à doutrina da Igreja e o que não pertence e assim por diante. É como se fosse um instinto cristão. Um breve enxerto. Ao dizermos acima que os pobres geralmente chegam à santidade mais rapidamente, não queremos com isso nem de longe dizer que o rico não possa também se santificar e tornar-se um “furação de glória”. Nos Evangelhos, Nicodemos, José de Arimateia, Zaqueu e outros eram ricos. Entre os santos também houve ricos. Contudo, entre outras coisas, é mister que o pobre fuja do socialismo e comunismo e o rico do liberalismo. O rico cristão é chamado a ser, por assim dizer, o tesoureiro e o mordomo dos pobres: “Eis o espírito de desprendimento; deve-se lembrar a todos o que disse São Tomás em outro lugar: se um pobre, em caso de necessidade, pede um pedaço de pão, e se lhe recusa, ele o pode tomar para si, e isso não será um roubo. Ele tem direito a não morrer de fome; a vida de um homem vale mais, evidentemente, do que um pedaço de pão, o qual não temos o direito de conservar conosco ciosamente se um de nossos irmãos tem absoluta necessidade dele. (...). E o que é dito do pedaço de pão, deve ser dito acerca da roupa e do abrigo necessário." (Garrigou-Lagrange. As três idades da vida interior. Trad. Antônio Carlos Santini et al. Rev. Landy Mannarino. 2 ed. São Paulo: Cultor de Livros, 2021. t. II. p. 742).

(II)             O crescimento espiritual em idade

Como a vida natural, também a sobrenatural tem suas idades. Na vida natural, temos a infância, a adolescência e a virilidade; na sobrenatural, tendo por base a caridade, temos o iniciante, o proficiente e o perfeito. Cada uma destas idades, como na vida natural, é precedida por uma espécie de crise, pelo que os autores espiritais costumam a falar de três conversões e a dividir a vida espiritual ou sobrenatural em três vias: a purgativa, a iluminativa e a unitiva. A primeira conversão é marcada pela iniciativa de Deus que, com as suas graças atuais, faz-nos passar da vida de pecado à vida da graça (pela infusão da graça santificante) e luta contra o pecado e as concupiscências que se opõem à caridade. Esta primeira conversão à vida da graça pode se dar no Batismo ou na absolvição sacramental. Os neoconversos, segundo o Padre Garrigou-Lagrange (As três idades da vida interior. Trad. Antonio Carlos Santini et al. 2 ed. Cultor de Livros: São Paulo, 2021. 2 v), começam a conhecer a si mesmos, constatando a sua miséria e indigência e aplicando-se diuturnamente ao exame de consciência. Outrossim, começam a conhecer a Deus no espelho das coisas sensíveis, quero dizer, não só na natureza, mas também nas parábolas evangélicas, como a do filho pródigo, da ovelha perdida e a do Bom Pastor. Com o passar do tempo e como recompensa por suas lutas, o Senhor cumula estas almas de consolações sensíveis não só nas orações, mas também no estudo das coisas divinas. O que acontece geralmente então? As almas iniciantes, sem perceberem que o Senhor, por meio das consolações sensíveis, só as quer atrair para si e tirar delas o gosto das coisas perigosas, ou seja, que estas consolações são um meio e não um fim, acabam se acostumando demais com tais consolações e começam a manifestar certa gula espiritual, certo espirito de curiosidade e apresentar-se como mestras das coisas do alto para os outros. É aí que se impõe a elas uma segunda conversão, que é chamada entre os espirituais de purificação passiva dos sentidos. Se passarem ilesas por esta dura prova, entrarão na via iluminativa e começarão a experimentar a contemplação infusa. Esta purificação, que é obra de Deus, começa com uma profunda aridez, pois o Senhor retira as consolações sensíveis. Ora, se junto com esta aridez houver um vivo desejo de unir-se a Deus, se na oração se manifestar significativa dificuldade de discorrer sobre algo e tudo se resumir num simples olhar amoroso ao Senhor, então temos a nota distintiva de que esta alma está passando pela noite escura dos sentidos. Nesta fase, os deveres de estado têm de ser realizados na secura (às vezes, em meio a uma doença) e a resistência aos pecados contra a castidade e a paciência deve ser varonil. Se a alma sucumbir, o que infelizmente não é tão raro, deixará de ser uma criança para ser um adulto infantilizado. Será uma alma retardatária, tíbia. No entanto, se aprovada, a alma pode saber que já ama o Senhor de todo o coração. É, pois, uma alma proficiente que passa a conhecer a Deus experimentalmente, não já no espelho das coisas criadas (a natureza ou parábolas evangélicas), mas principalmente nos mistérios da salvação, com os quais se familiariza pela recitação piedosa diária do santo Rosário, que é uma escola de contemplação. Neste momento, Deus, na sua infinita bondade e em proporção à fidelidade e generosidade destas almas, dispensa-as uma abundância de luz, sobretudo por meio do dom do entendimento, que as faz penetrar cada vez mais profundamente nos mistérios da salvação. Já não se trata aqui de consolações sensíveis, mas espirituais. A inteligência é cativada e vai progressivamente se simplificando. O resultado deste estado presente de coisas é que as almas amam o Senhor não só fugindo com horror do pecado mortal e dos veniais deliberados, mas também procurando imitar em suas vidas as virtudes de Nosso Senhor. Procuram viver não só os mandamentos do decálogo, mas também os conselhos evangelhos, ao menos o seu espírito. Como já mencionado acima, estas almas são presenteadas com uma abundância de luz, proveniente do dom do entendimento. Estão cheias de ardor na vida de oração e impregnadas de zelo apostólico; são almas verdadeiramente obcecadas para que seu trabalho redunde na glória de Deus.  Elas já não amam o Senhor só de todo o coração, mas também de toda a alma, isto é, com todas as suas atividades próprias. O que geralmente ocorre então? Como com as consolações sensíveis da primeira idade, as espirituais da segunda, isto é, a oração contemplativa, a abundância de luzes espirituais para penetrar nos mistérios da salvação e assim poder pregar e ensinar com afinco acabam tomando o lugar de Deus nas almas. É certo que elas trabalham para Deus e servem às almas, porém andam muito exteriorizadas e certo orgulho espiritual as incham. Não há saída, faz-se necessário uma segunda purificação passiva, desta feita do espírito, a fim de que a alma deixe de preferir inconscientemente os dons ao doador dos dons. É a crise da terceira conversão. Nela, as almas se veem verdadeiramente desprovidas ou despojadas não só das consolações sensíveis, senão também e principalmente das espirituais, como as luzes para penetrar nos mistérios da nossa salvação, da sua prontidão calorosa para se doarem às almas e daquele desembaraço habitual e sem reservas na oração, na pregação e no ensino. Observe-se que em todas estas atividades o mais das vezes se escondia ainda um orgulho secreto.  Pois bem, nesta fase também, a alma experimenta, sobretudo na oração, especialmente uma grande aridez. As tentações sobrevêm de todos os lados, mas destacam-se aquelas contra as três virtudes teologais (fé, esperança e caridade). No que toca especificamente à caridade, se é tentado não só em relação ao próximo, mas até mesmo em relação ao próprio Deus. Na vida que corre, nesta crise, as almas experimentam desvios, obstáculos e fracassos. Não raro são difamadas, caluniadas, além de sofrerem ingratidões tremendas daqueles que antes só lhes faziam bem. Trata-se, enfim, como diz o próprio Padre Garrigou-Lagrange, de uma verdadeira morte mística. Àqueles que a atravessam com grandeza de ânimo, fidelidade à graça e abandono à vontade Deus é dado amarem a Deus com todas as forças e estão mesmo prontos para amá-lo com toda a sua mente. E é o que de fato acontece. As almas na via unitiva, não só na oração, mas durante todos os seus afazeres externos nunca perdem a consciência da presença de Deus e, por isso, nada fazem senão unicamente para agradá-lo. Neste estágio, já não contemplam Deus na natureza ou nas parábolas, nem mesmo nos mistérios da salvação, senão, pela penumbra da fé, em Si mesmo; enquanto Ele habita no mais recôndito de suas almas, elas também vão para lá esconder-se com Ele. Sabem que a Realeza divina não está fora, mas dentro, no íntimo de suas almas. Por isso, tais almas estão sempre interiorizadas, pois querem amar sua Alteza, que habita no fundo delas, com toda a sua mente, isto é, o tempo todo. Experimentam um conhecimento amoroso e saboroso de Deus, proveniente do dom da sabedoria. Por fim, nunca perdem a humildade, porque experimentam constante ou frequentemente o seu nada ao comparecerem ou estarem diante do Rei do universo.

(III)           O crescimento espiritual em graça

Devemos crescer na graça que nos é conferida no Batismo em forma de germe ou semente que tende a se desenvolver e a se desenvolver até chegar a sua máxima expansão, que é a vida do Céu. Cabe nós, com os meios que nos foram dados, fazê-la crescer. A falar com máxima exação, “Este é o propósito primário e fundamental da vida do cristão na Terra: para isso precisamente nos é dada a vida. Todas as outras atividades da vida não têm significado ou razão de ser, exceto em termos desse propósito supremo. A vida do homem na Terra nada mais é do que um noviciado de eternidade” (Royo Marín. Jesus Cristo e a vida cristã. Trad. Ricardo Harada. Rev. Juliana Amato. São Paulo: Ecclesiae, 2020. p. 673). Há três meios de crescermos na graça: os sacramentos, a prática das virtudes e a oração. Comecemos pelo primeiro. O sacramento é um sinal sensível, instituído por Jesus Cristo, para significar e produzir a graça santificante naquele que o recebe dignamente. A graça, no sacramento, é conferida por sua virtude intrínseca (“ex opere operato”) a quem o recebe com as disposições necessárias. O Batismo e a Penitência são chamados sacramentos de mortos, porque se supõe que aqueles que o recebem estão mortos em virtude seja do pecado original, seja do atual. Os outros sacramentos são chamados sacramentos de vivos, porque se pressupõe que aqueles que os recebem já estejam em estado de graça. Todavia, pode ocorrer que alguém receba a absolvição sacramental só para o perdão das faltas veniais. Quando isso ocorre, um sacramento de mortos, como a penitência, age como sacramentos de vivos, pois certamente incrementará a graça santificante que o fiel já tinha, realizando assim um real aumento da graça. Doutro lado, pode acontecer que alguém receba um sacramento de vivos em pecado mortal (sem o saber) e com as disposições devidas (incluída a atrição sobrenatural). Neste caso, ele receberá a graça santificante e um sacramento de vivos fará as vezes de um sacramento de mortos. O fato a se ressaltar aqui é que, pressuposta a igualdade das disposições subjetivas por parte de quem recebe os sacramentos, os mais excelentes conferirão maior graça que os menos excelentes. Assim, aqueles que, com igual fervor ou devoção, receberem o sacramento da Eucaristia receberão maior graça do que aqueles que receberem, com igual fervor ou devoção, um sacramento menos excelente, como é o caso do Matrimônio. É claro que, se a disposição de quem receber um sacramento menos perfeito for maior do que aquele que receber o menos perfeito, aquele que receber o sacramento menos perfeito poderá receber uma graça mais intensa. Pois bem, aquele que recebe um sacramento com disposições interiores mais perfeitas do que o outro receberá mais graças, porque quanto maior a disposição do sujeito, mas intenso será o efeito da causa nele. Assim, quanto mais seca a madeira, mais rápida e intensamente o fogo a inflamará e quanto maior for o tamanho do copo, maior a quantidade de água que ele poderá conter. A partir deste princípio, podem ser deduzidas algumas conclusões. Para haver maior intensidade de graça recebida no sacramento, importa muito mais a preparação do que propriamente a ação de graças, pois a graça sacramental será conferida no momento mesmo da recepção do sacramento e não depois. Outra coisa a se destacar é que, no toca às almas em estado de graça, a principal disposição para uma recepção mais frutuosa dos sacramentos é a caridade, a ponto de se poder dizer que aquele que tiver maior intensidade na preparação, mas menor caridade, certamente receberá menos do que aquele que eventualmente se preparou menos, mas recebe o sacramento com uma caridade mais ardente: “E como a disposição mais perfeita de todas é aquela que provém da virtude da caridade, segue-se que o caminho para alcançar a máxima quantidade de graça para receber um sacramento é recebê-lo com o máximo amor de Deus de que somos capazes” (Idem. Op. Cit. p. 677). Com dois sacramentos lidamos diariamente: a Penitência e a Eucaristia. Para a recepção salutar do sacramento da Penitência o que mais conta é a contrição intensa. Se ela for perfeita, não somente obteremos com a absolvição o perdão da culpa, da pena eterna e de todas as penas temporais, mas obteremos ainda um grande aumento da graça santificante em relação ao que tínhamos antes de nos confessar. Já Santo Tomás dizia que, dependendo da intensidade do arrependimento, podemos, pelo sacramento da Penitência, obter um grau menor, igual ou maior da graça santificante que desgraçadamente havíamos perdido. Contudo, “(...) convencido de que essa graça perfeita e intensa [a contrição, ou seja, abominar o pecado por amor a Deus e não por medo do inferno (atrição)] é um dom de Deus que só pode ser impetrado pela oração, [o penitente] se humilhará profundamente perante a divina Majestade, implorando insistentemente pela intercessão de Maria, Medianeira de todas as graças” (Idem. Op. Cit. p. 678-679). A Eucaristia é o maior dos sacramentos, contém não só a graça, mas o autor da graça, vale dizer, a adorável pessoa do Salvador. Todos os sacramentos tendem para a Eucaristia como para seu fim, ou seja, tudo o que fazemos na ordem sacramental é para comungar e comungar melhor. Devemos nos aproximar deste sacramento com a máxima humildade, pois embora nossas faltas tenham sido perdoadas e ainda que, porventura, as tivermos devidamente reparadas, restará sempre o fato histórico de que pecamos contra Deus e só contra Ele pecamos. Nós seremos sempre ex-prisioneiros de Satanás. Ora, só isso já bastaria para nos compungir e nos fazer aproximarmos do Senhor dobrando a nossa dura cerviz. Ademais, se levarmos em conta a lei da intensidade, como em cada comunhão comungamos com maior intensidade, esta comunhão nos dá a graça e dispõe para que no dia seguinte comunguemos ainda mais intensamente. Daí que cada nova comunhão deveria normalmente ser mais intensa do que a passada. Outra forma de crescermos na graça é pelo mérito adquirido pela prática das virtudes infusas. Duas coisas precisam ser consideradas neste assunto: o motivo e a intensidade dos atos. A primeira regra a ser observada aqui é que o motivo de agirmos deve ser sempre estritamente sobrenatural. Por exemplo, se, movidos por uma misericórdia natural (a filantropia, por exemplo), dermos uma esmola ao próximo, praticaremos sem dúvida um ato bom. Contudo, qual é o seu mérito sobrenatural? Rigorosamente nenhum. Por outro lado, se formos movidos pela misericórdia sobrenatural, sob o comando da caridade infusa, para darmos ao próximo a esmola, teremos feito um ato meritório que merece a vida eterna, salvo se este ato for remisso. O fato é que, embora muitas vezes os objetos materiais das virtudes adquiridas e infusas coincidam-se, os seus objetos ou motivos formais diferem: “Que um ato puramente natural produza um efeito sobrenatural é tão absurdo e impossível quanto uma estátua de mármore que desatasse a falar ou começasse prontamente a andar” (Idem. Op. Cit. p. 684.). Então quer dizer que, em cada caso, é preciso se propor um motivo sobrenatural para realizarmos um ato de virtude meritório diante de Deus? Seria o ideal e é o que objetivamente os santos fizeram. No entanto, é preciso distinguir três modos de intenção: o atual, que recai sobre o ato mesmo enquanto o realizamos, o virtual, que é quando nos propomos, ainda que com distância de tempo, a realizar um trabalho, embora quando o realizamos não pensemos atualmente no propósito que nos levou a realizá-lo; e finalmente o habitual, que é quando fazemos um propósito do qual nunca nos retratamos, mas que não influencia nos atos que efetivamente praticamos, porque outros motivos o sobrepujam. É claro que dos três o primeiro é o mais passível de mérito sobrenatural, mas o segundo, embora menos, também o é. Já o terceiro não tem mérito sobrenatural. Vamos exemplificar e ao mesmo tempo dar um passo adiante. Se uma pessoa, estando em estado de graça, supera uma tentação contra a castidade, por um motivo sobrenatural relacionado unicamente com essa virtude (por exemplo, para não profanar seu corpo, que é templo do Espírito Santo), o ato é estritamente sobrenatural e meritório no que toca à virtude da castidade. Se, no entanto, esta pessoa resiste e vence uma tentação contra a castidade pelo motivo sobrenatural desta virtude e também por amor a Deus, este ato será duplamente meritório no plano sobrenatural: pela virtude da castidade e pela da caridade. Pela virtude da caridade estará ordenado a receber como prêmio a visão beatífica. Pela virtude da castidade merecerá um prêmio acidental, por exemplo, ter um corpo glorioso mais ou menos glorificado. Disso decorre, qual corolário espontâneo, que o que essencialmente nos une a Deus e, portanto, santifica-nos é verdadeiramente o amor: “O intenso amor de Deus é o caminho mais curto e seguro para atingir os mais altos cumes da perfeição e santidade” (Idem. Op. Cit. p. 687). Contudo, para conseguirmos entender como se dá especificamente o mérito e o crescimento na graça pela virtude, falta-nos constatar em que consiste exatamente a intensidade dos atos. As virtudes são hábitos infusos que estão nas respectivas potências ou faculdades da nossa alma. Elas são qualidades e, ipso facto, não crescem por adição, mas por intensidade: “(...) [as virtudes infusas] cuja essência mesma consiste em modificar acidentalmente o sujeito em que radicam, dando-lhe a capacidade para agir sobrenaturalmente” (Idem. Op. Cit.) são qualidades. Pois bem, para que cresça em nós esta capacidade de agir sobrenaturalmente, estes hábitos infusos que modificam acidentalmente as faculdades ou potências da nossa alma precisam se arraigar nelas, se enraizar nelas e isso só é possível por atos cada vez mais intensos e não, por exemplo, por “arroubas de humildade”. Disso se deduz que os atos remissos não radicam nem um ponto a mais as virtudes em nossas faculdades, ainda que de algum modo estes mesmos atos possam remotamente nos preparar e dispor à prática de atos mais intensos. Decorre do que dissemos que um ato intenso vale mais do que mil atos remissos. Uma Ave-Maria rezada com fervor vale mais do que um Rosário rezado sem devoção (o que não nos dispensa de rezar o Rosário com fervor!). Ademais, não podendo, por infelicidade da nossa condição, permanecermos praticando atos intensos o dia todo, devemos tirar alguns momentos do dia para praticarmos os atos mais fortes das virtudes. De mais a mais, pelo próprio conceito de intensidade maior ou menor, cada ato mais intenso que praticamos vale mais do que todos os que havíamos praticado até então em nossa vida anterior. De resto, é errôneo pensar que crescer na virtude exige de nós algo impossível, atos cada vez mais difíceis, já que acontece justamente o contrário. Precisamente por estarem cada vez mais radicadas em nós pelos atos intensos passados, cada vez mais as virtudes agem pronta e facilmente com mais força ou intensidade. Entretanto, como um hábito infuso só pode ser levado a ato por aquele que o produziu, isto é, Deus, devemos orar, em última instância, para que Deus nos faça crescer, concedendo-nos graças atuais mais intensas, sem as quais absolutamente nada podemos fazer. O que dissemos das virtudes vale também para os dons, que deixam de estar latentes para estar patentes na etapa mística. Por fim, outro meio de crescer na graça é a oração. A oração tem um valor satisfatório, porque, se bem feita, aos menos para as almas imperfeitas, pressupõe uma penosa concentração ou esforçada e deliberada atenção. Possui ainda um valor meritório, como todo ato sobrenatural, pois está radicalmente ligada à virtude da religião e recebe seu valor meritório principal do império da caridade. Tem ainda seu aspecto de refeição espiritual, porque é nela que desfrutamos das consolações de Deus e, mais ainda, entretemo-nos com o próprio Deus. E, afinal, o que mais nos interessa aqui, a oração tem um valor impetratório. O Padre Garrigou-Lagrange fala do desgraçado pecador que, sem estar na vida da graça, por meio de uma graça atual, roga a Deus para que o tire desse inferno em potência chamado pecado mortal. Se perseverar, será ouvido, obterá a conversão e buscará o sacramento da Penitência ou do Batismo, se este for o seu caso. Nesta oração do pecador é um abismo, o do pecado, que chama outro abismo, o da misericórdia divina. Depois da conversão ou justificação, se a oração prosseguir sendo feita com humildade, confiança e perseverança, o convertido pedirá a Deus, através do Pai-Nosso, uma fé mais viva, uma esperança mais firme e uma caridade mais ardente. Como clamará não só à justiça de Deus, mas sobretudo à misericórdia, não só receberá o que lhe é de direito, mas muito mais do que lhe é devido. Por fim, por meio da oração, podemos obter, com efeito, muitas coisas que jamais poderíamos merecer (por exemplo, incontáveis graças eficazes). Assim, na Ave-Maria pedimos: “Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós, pecadores, agora e na hora da nossa morte”. Aqui pedimos nada mais nada menos do que a graça da graças, a saber, a graça da perseverança final que, por recair sobre o princípio do mérito que é a graça santificante, nunca poderia ser merecida e só pode ser alcançada pela oração que roga à misericórdia de Deus: “A oração, como vemos, dirigindo-se à infinita Misericórdia, ultrapassa o mérito; ela pode obter, para o pecador ainda incapaz de merecer, a graça da conversão; e, para o justo, ela obtém com frequência graças que não poderiam ser merecidas, como a perseverança final e as graças eficazes que a ela conduzem” (Garrigou-Lagrange. As três idades da vida interior. Trad. Antônio Carlos Santini et al. 2 ed. São Paulo: Cultor de Livros, 2021. t. I. p. 170). Porém, como a própria oração pressupõe a graça, não nos cansamos de dizer que a nossa salvação e santificação estão nas mãos de Deus. Uma coisa é certa, nas coisas de Deus, quem não progride, regride.

Corredentores?

No Batismo, os cristãos recebem, qual caráter indelével, uma verdadeira e real participação no sacerdócio de Cristo, embora em grau e espécie muito diferentes daquela participação que os ministros ordenados recebem no sacramento da Ordem. Ora, o ato sacerdotal por excelência é o sacrifício. Pois bem, o ato sacerdotal de Cristo foi o sacrifício do Calvário, pelo qual nos libertou dos pecados causalmente, isto é, pelo qual produziu a causa da nossa libertação. O sacerdote-ministro renova, quanto à sua substância e de forma incruenta na santa Missa, o único sacrifício do Calvário. Agora resta saber como o cristão batizado participa do sacrifício do Gólgota. Em outras palavras: pode o cristão colaborar com a redenção de Cristo? Quanto à sua substância, o sacrifício de Cristo foi não só suficiente como superabundante para expiar todos os pecados do mundo. Por isso, quanto à sua substância, ele está completo. Contudo, assim como não basta ao médico produzir a virtude salutífera para a cura da doença, mas também aplicá-la ao paciente, da mesma forma importa que Cristo aplique os frutos da sua Paixão aos eleitos. E é aqui, de uma maneira incrivelmente íntima, que Cristo quis precisar de nós. O Abade Grimaud (El y nosotros: un solo Cristo) explica admiravelmente este mistério. Nosso Senhor no Calvário foi sacerdote e vítima, visto que Ele se ofereceu a si mesmo. Todavia, seria um erro pensar que Ele se ofereceu sozinho. Na verdade, Ele ofereceu Ele e seus membros, que são uma coisa só. De modo que a vítima que agradou ao Pai no Calvário não foi só o Jesus de Nazaré histórico, mas Ele e o seu Corpo Místico, que é a Igreja. Ele a cabeça e nós os membros, reiteramos, somos uma só coisa. Toda sã teologia admite a universalidade da ciência de Cristo. Assim, Ele nos viu do alto da Cruz, viu nossas orações, nossas decisões, nossos atos e nossas falhas. Nada escapou ao seu olhar amoroso. Pode-se mesmo afirmar que Cristo foi consolado, como Chefe e Cabeça da Igreja, ao assistir às lutas e sofrimentos dos seus membros, ao ver o quanto eles ao longo dos séculos contribuiriam para que a Sua salvação chegasse a todos os homens. Ao mesmo tempo, como deve ter aumentado o suplício de Nosso Senhor ver as ingratidões e infidelidades dos seus membros pelos séculos afora. A dor em si mesma, é bom que se diga, não santifica ninguém, como não santificou o mau ladrão, que morreu blasfemando. No entanto, a nossa dor unida à de Cristo é “moeda aceita pelo Céu”, como assevera Royo Marín. Assim, por exemplo — continua Grimaud —, Cristo contemplou os sofrimentos atrozes de São Paulo (fome, sede, naufrágios, flagelações e prisões) suportados em união com os Seus e em prol da salvação das almas e foi sustentado por eles. Entretanto, não bastava a Cristo assistir ao sofrimento de São Paulo e a chancelá-lo. Era preciso que o Apóstolo das Gentes consumasse em sua própria carne o que faltou às tribulações de Cristo (Cl 1, 24). Ora, o que ocorreu com o Apóstolo dos Gentios acontece também conosco. Cristo anteviu as nossas dores e separou para nós o quinhão de participação na Sua Paixão, vale dizer, aquela parte que nos cabe sofrer para o quebrantamento de muitos corações empedernidos. Talvez estes corações apartados de Cristo estejam longe de nós não só pelo espaço, senão também pelo tempo. Contudo, são nossos irmãos, seja por já serem membros do Corpo Místico de Cristo ou porque sejam chamados a serem. Assim sendo, somente quando o último dos membros de Cristo tiver acabado de padecer o que a Cabeça previu e reservou para ele e o último dos eleitos tenha sido completamente purificado, poder-se-á dizer com toda a verdade: Tudo está consumado (Jo 19, 30): “A Paixão de Cristo, pois, continua nos membros de seu Corpo Místico, que é a Igreja. Isto concorda com a verdade de que a Igreja é, em um sentido verdadeiro e real, embora místico, o próprio Cristo” (Royo Marín. Jesus Cristo e a vida cristã. Trad. Ricardo Harada. Rev. Juliana Amato. São Paulo: Ecclesiae, 2020. p. 776). O Padre Plus (Cristo en nuestros prójimos) assevera que muitos cristãos vivem de meias verdades. Por exemplo, cremos termos sido redimidos por Cristo, mas desconhecemos que podemos e devemos ser corredentores. De fato, parece que simplesmente ignoramos a íntima solidariedade que nos une uns aos outros no Corpo Místico de Cristo. Por exemplo, suponhamos que uma corrente seja posta em nosso pé. Pois bem, este grilhão atrapalhará todo o nosso corpo de se movimentar. Ao contrário, se este grilhão for quebrado, todo o nosso corpo andará com mais facilidade e sem retardamento. Da mesma forma na vida sobrenatural, quando praticamos um só ato meritório, todo o Corpo de Cristo caminha mais desenvolto. Ao contrário, se pecamos, todo o Corpo sofre e começa realmente a caminhar titubeante. Quando começamos a existir sobrenaturalmente no dia do nosso Batismo, nossos atos começam a repercutir sobre os outros membros do Corpo de Cristo. Se forem atos meritórios, trarão pujança para os membros do Corpo, mas se forem pecaminosos poderão prejudicar outro membro. Em última instância, nossos atos bons (feitos em estado de graça) podem redundar na salvação de um membro; já nossos atos pecaminosos, podem nos perder e ser perdição para outros membros. Deus deve a Si mesmo prover os membros do Corpo Místico de graças superabundantes para que nenhum deles se perca. Todavia, é Deus mesmo quem quis que essas graças chegassem aos seus destinatários por meio de nossos atos meritórios, nossas orações (que vão além do mérito) e nossos sacrifícios. Ele quis que houvesse, ao criar o Corpo Místico, uma cooperação meritória coletiva. De modo que, como diz o Padre Plus, só Jesus Cristo é o Salvador do mundo com a letra inicial maiúscula; porém, devido sermos membros do Corpo Místico de Cristo e termos entre nós esta solidariedade inigualável, podemos dizer que somos salvadores do mundo, com letras minúsculas e secundariamente, ou seja, em total dependência de Cristo. Que sublime vocação é a do cristão: ser um operário de Deus, colaborar com Ele para a salvação das almas, talvez para de muitas. Para isso, o cristão não precisa necessariamente ser santo já, basta estar em estado de graça. Aqui, podemos merecer com um mérito de côngruo a primeira graça para um irmão, aquela que irá abrir-lhe a porta do Céu. Ali, podemos expiar os pecados de outro. Com efeito, impondo a nós mesmos obras penosas para restabelecer a ordem que um prazer desordenado quebrou, podemos verdadeiramente dar acabamento a uma obra divina como é a salvação do mundo. Não podemos fazer as vezes de Deus, as vezes da graça, mas em estado de graça podemos agir de forma a deixar Deus ser Deus. E como no Corpo Místico os tesouros se acumulam e circulam acima do espaço e do tempo, as nossas orações, os nossos méritos e o nosso sacrifício unido ao de Cristo podem ser proveitosos para uma alma eleita muito distante. Com efeito, um ecumenismo malsão têm-nos feito esquecer estas verdades certas e comuns a todas as escolas, o que tem acarretado para muitos a vivência de uma espiritualidade individualista, que não sai de si mesma, que está avara da sua própria salvação até o ponto de passar por cima da de seus irmãos. O esquecimento destas verdades têm sobretudo impedido ou atrasado a proclamação do dogma daquela que é a Corredentora, com a inicial maiúscula: a Santíssima Virgem.

Sobre os novíssimos e a nossa incorporação em Cristo

Todo ser dotado de vida orgânica tende a se desafazer, ou seja, a morrer. Entre os pagãos, a morte é a coisa mais terrível que pode acontecer a um homem. Para os cristãos autênticos, ao contrário, é o encerramento do bom combate, o começo da vida verdadeira, o cumprimento do nosso destino final e o momento de receber do Senhor, justo juiz, a coroa da vitória. Precisamos nos lembrar do que dissemos noutro lugar. Jesus tinha a universalidade da ciência. Na cruz especialmente, Ele viu a nossa morte e a aceitou como parte da dEle. Como membros de um Corpo Místico cuja Cabeça é Ele, a morte de cada um de nós é um capítulo da sua. Em nós, é Cristo quem continua morrendo. A morte do cristão é, pois, um prolongamento da morte de Cristo, porque o Cristo total é o Cristo mais nós. Assim como São Paulo nos diz que completava em sua carne o que faltava às tribulações de Cristo (Cl 1, 24), podemos realmente dizer que a morte de Cristo só se completa com a nossa. A bem da verdade, no Calvário, Cristo não só viu a nossa morte, como definiu-a; Ele fixou, por assim dizer, um rito para ela. Desta sorte, a cada sofrimento que passamos na vida, a cada nova doença diagnosticada, deveríamos ver o desejo de Cristo expirante começando a se cumprir em nós. Outrossim, se a agonia que nos aguarda na nossa última hora for muito dolorosa, talvez o desenrolar de uma doença agressiva, deveríamos ver nisso um privilégio, pois significará que Nosso Senhor quis associar-nos mais intimamente aos desdobramentos do seu dilacerante martírio. Nossa morte, é bom que saibamos, não será apenas a vitória de uma força bruta que fará com que o nosso corpo separe-se da nossa alma, mas será Ele mesmo que virá buscar-nos (Ap 3, 3) como um membro seu, para levar-nos consigo. A morte é e sempre será um castigo do qual nenhum ser humano escapará, mas cientes do fato de que a nossa será apenas um episódio da de nossa adorável Cabeça na Cruz, deveríamos nos sentir consolados, pois não passaremos sozinhos pelo túnel escuro da morte, senão que passaremos com Ele. De mais a mais, é bom façamos o propósito, ainda gozando de boa saúde, de sermos obedientes neste momento, aceitando com amor o gênero de morte que Ele nos reservou. Peçamos-lhe esta graça enquanto estamos conscientes. Outra parte dos novíssimos é a ressurreição. Tanto a ressurreição de Cristo como a nossa são atestadas nas Sagradas Escrituras e na Tradição. Além disso, são dogmas de fé. A causa instrumental da nossa ressureição será a humanidade de Cristo, na medida em que por meio deste instrumento unido (a sua humanidade) o Verbo comunicará aos nossos corpos a sua infinita virtude vivificante. As nossas almas voltarão a reunir-se com os nossos corpos, mas não será apenas isso. Na verdade, Cristo nos ressuscitará valendo-se da mesma virtude vivificante da Sua própria ressurreição gloriosa. O Abade Grimaud (El y nosotros: un solo Cristo) descreve com vivacidade este mistério. Na vida natural, os membros e a cabeça têm no corpo uma vida comum. Se a cabeça subministra a todo o corpo a sua potência e organização, o corpo permanece vivo e coeso. Se a cabeça morre, todo o corpo perece. Ora, no Corpo Místico vigora a mesma lei, pois todo o corpo recebe a vida, a glória, a virtude e a organização da sua divina Cabeça, Jesus Cristo. De modo que os membros seguem a Cabeça. Desta sorte, se os membros do Corpo Místico não alcançassem o mesmo estado da sua Cabeça, o Corpo Místico de Cristo se tornaria um corpo deformado. Assim, é simplesmente uma lei que não pode ser extinta o fato que, se a Cabeça ressuscitou, o Corpo também ressuscitará, por força e ação da própria Cabeça. A Cabeça apenas subministrará ao corpo a virtude que já tem em si. De sorte que a ressurreição da Cabeça produzirá a do Corpo. A falar com máxima exação, há então apenas uma ressurreição, a do Cristo total, que é Cristo e nós. Assim como na ressurreição de Lázaro, o que saiu do túmulo não foi só a cabeça, mas todo o corpo, a ponto de os presentes terem de desatá-lo (Jo 11, 44), assim, quando Cristo saiu do túmulo saiu com nós todos, seus membros. Entretanto, parece haver aqui uma contradição. É simplesmente um fato que os corpos dos nossos entes queridos e bons cristãos não estão ressuscitados. Antes, muitos corpos de cristãos conheceram a corrupção e parece que os nossos próprios corpos também a conhecerão, ou seja, apodrecerão e se tornarão poeira que o vento leva. Mas a verdade está no seguinte. Como no corpo humano ou há perfeita saúde de todos os membros ou não há corpo propriamente saudável, assim no Corpo Místico de Cristo não se busca a salvação de um eleito isolado, mas de todos. Expliquemo-nos. Por exemplo, se um tornozelo se quebra e forma-se uma deformidade óssea, ainda que todo o resto do corpo esteja são, não se poderá dizer mais com propriedade que o corpo goza de saúde, pois o homem tornou-se manco. O mesmo acontece no Corpo Místico. A parte deste Corpo que está no Céu está isenta do mal e desfruta da felicidade celestial, mas a que está no Purgatório padece e a que está na Terra labuta. Logo, não se pode dizer com propriedade que todo o Corpo Místico de Cristo está são. Pois bem, como no corpo humano o bem do todo é o que é buscado de preferência ao bem da parte, assim também no Corpo Místico. Destarte, para haver a suspensão da penalidade do pecado, é mister que se tenha completado o número dos eleitos a serem purificados. Só então poderá dar-se o evento final da ressurreição. Assim que o último eleito estiver purificado do pecado e o Corpo Místico gozar então de perfeita saúde, acontecerá, como “num piscar de olhos”, isto é, sem retardamento, a ressurreição dos corpos de todos os membros de Cristo e a renovação de todas as coisas. O mundo mudará de aparência. Outrora habitado por mortais, eis que agora será habitado por imortais, pois a nossa ressurreição não será como a de Lázaro, do filho da viúva de Naim ou da filha de Jairo que voltaram a morrer. Nossas almas tornarão a se unir aos nossos corpos, sem dúvida, mas não será só isso. Sairemos do túmulo em virtude de uma ressurreição gloriosa, com um corpo claro, ágil, sutil e impassível. Só então a ressurreição de Cristo estará completa. Mas prossigamos. Depois de ter convivido com os seus Apóstolos durante quarenta dias, Nosso Senhor, à vista deles, subiu ao Céu. Novamente precisamos voltar ao princípio: Ele e nós, um só Cristo. Diz o Abade Grimaud (El y nosotros: un solo Cristo), se eu subo, sobem comigo as minhas mãos, os meus pés, o meu peito. Sendo assim, a ascensão de Cristo e a nossa são uma só coisa: Ele é a cabeça, nós os membros do Seu Corpo Místico, que é a Igreja. Não se trata aqui daquela primeira ascensão, que se dá quando da nossa morte. Falamos desta feita daquela que ocorrerá após a nossa ressurreição. Tamanha era a certeza de São Paulo, comenta Santo Tomás, que ele fala até no passado, como se tudo já tivesse ocorrido: “Ele nos fez sentar nos Céus em Jesus Cristo” (Ef 2, 6). Contudo, parece novamente que há algo contra o que propomos. É Nosso Senhor mesmo a dizer que ninguém subiu ao Céu senão aquele que desceu do Céu (Jo 3, 13). Mas nós nascemos na Terra. Todavia, fomos incorporados Àquele que desceu do Céu pelo nosso Batismo. Logo, ao subir novamente, Ele, nossa adorável Cabeça, levou-nos nEle. São Gregório Magno diz que Cristo veio sozinho e voltou sozinho, aumentado apenas por seus membros, que somos nós. Santo Agostinho pergunta e responde: Ficaremos nesta Terra? Não! Desde quando nos tornamos membros de Cristo, isto é, do seu Corpo Místico, pertencemos a Ele e não a nós. Assim, iremos com Ele e estaremos com Ele onde Ele estiver (Jo 14, 3), da mesma forma como o corpo acompanha sempre a cabeça. Não que Ele não volte como veio, vale dizer, sozinho, mas é que Ele é Ele mais nós. Se dermos um passo a mais neste assunto, entraremos na “teologia do Céu”. Lá veremos a Deus face a face. A nossa luz será o lumen gloriae, mas a nossa lâmpada será o Cordeiro (Ap 21, 23), pois sem Ele nada podemos fazer (Jo 15, 5). Mas o Céu não é só uma beleza nova, diz o Abade Grimaud (El y nosotros: un solo Cristo); é, de certa forma, uma beleza antiga com a qual já estamos até familiarizados. De fato, a vida do Céu já está em nós crescendo, qual germe ou semente que se desenvolve, desde o nosso Batismo. É sempre bom explicar que a nossa incorporação em Cristo não tira a nossa personalidade, mas só a título de ilustração daremos um exemplo. No Céu será como se cada membro do Corpo Místico ganhasse consciência e pudesse agradecer à Cabeça. Assim, a mão agradecerá: “Obrigado por ter escrito comigo, eu o fiz livremente!”. E o pé complementará: “Obrigado por me fazer andar e levar o Senhor, eu realizei esta função com grande prazer!”. E todo o Homem-Novo erguerá um louvor e adoração eternos ao Pai. O Corpo Místico não será então senão um único Homem-Novo que orará e adorará a Deus da cabeça aos pés. (Royo Marín. Jesus Cristo e a vida cristã. Trad. Ricardo Harada. Rev. Juliana Amato. São Paulo: Ecclesiae, 2020. p. 785-823).

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