É doutrina próxima da fé (proxima fidei) que todo homem, que possua o uso da razão e proceda com sinceridade, esteja em condições de chegar, por uma certeza espontânea, isto é, certeza não reflexa ou científica, ao conhecimento da existência de um Ser supremo como Soberano Legislador, ao qual chamam Deus. Pelo que, inclusive os gentios, são inescusáveis por desconhecerem a Deus e às suas leis. Dos pagãos, diz o Apóstolo: “Porque o que se pode conhecer de Deus é manifesto entre eles, pois Deus lhos revelou. Sua realidade invisível – seu eterno poder e divindade – tornou-se inteligível, desde a criação do mundo, através das suas criaturas, de sorte que não têm desculpas” (Rm 1, 19-20). Portanto, todo homem tem uma obrigação moral de conhecer a Deus e submeter-se a Ele.
Contudo, no âmbito filosófico, onde se exige que o argumento se imponha em razão de uma evidência reflexa, o conhecimento da existência de Deus não poderá prescindir de uma demonstração rigorosa e erudita da objetividade e transcendência dos primeiros princípios da razão, mormente os princípios de identidade, razão suficiente e causalidade, que são, respectivamente, o fundamento remoto, próximo e imediato pelo qual chegamos a Deus por meio dos seus efeitos. Por conseguinte, aqui já não bastam simples inferências ou deduções incautas, nem tem valor decisivo aquele conhecimento confuso de Deus ao qual se pode chegar qualquer indouto que seja franco e de boa fé.
Ora, é precisamente aqui que entra o nosso texto. Sem embargo, no âmbito filosófico, até que se demonstre a existência de Deus como Ipsum Esse Subsistens e Ser necessário, não se pode concluir que o ateísmo seja imediatamente ilógico. Com efeito, antes que a demonstração seja concluída, o absurdo do ateísmo não se torna explicitamente evidente para nós (quoad nos).
De fato, a existência de Deus funda-se, remotamente, no primeiríssimo princípio da razão, a saber, o princípio de identidade (o que é, é; e o que não é, não é), mas isto precisa ser demonstrado a posteriori. Abre-se então, neste ínterim, uma porta para o diálogo, já que à razão, em seus primeiros princípios, todos devem assentir. Observe-se que o fundamento deste diálogo deve estar na razão e na sua universalidade, e não num “irenismo”. A reta razão é a janela para o verdadeiro diálogo.