O termo emanação suscita dificuldades importantes para o concurso do tratado da criação. Exequíveis, no entanto, de serem dirimidas e sanadas. Com efeito, em sua concepção neoplatônica, designa exatamente o oposto daquilo que o conceito de criação cristão quer significar. De fato, o que emana é da mesma natureza daquilo do qual é emanado. Ademais, na acepção neoplatônica, o efeito emana da causa por uma necessidade indeclinável. E, conquanto seja inferior a ela, é coeterno com ela. Todo o contrário é a noção cristã de criação.
Em Tomás, todavia, o termo emanatio quer indicar outra coisa. Antes de tudo, a criação por emanação não quer expressar uma emanationem particularem qualquer, mas ela nos reporta imediatamente para a emanatio universalis, do efeito também mais universal que pode haver, a saber, o esse. Por isso mesmo, ela nos remete ainda, e por consequência, à primeira causa universali, a saber, àquela que é a causa totius entis, qual seja, Deus. Ora, o esse, por sua vez, é o efeito mais universal que existe, porquanto qualquer outra perfeição, o pressupõe e dele procede de algum modo. E Deus, por seu turno, é a causa universalíssima, porque é o único que pode conceder o ato de ser (actus essendi) ao que não é de nenhum modo. Portanto, in creatio, ocorre a emanatio de totius esse ex non ente.
Ora bem, o non ente é justamente nihil, pois o nihil, em Tomás, é precisamente aquilo que é nullum ens: Tomás de Aquino. Suma Teológica. I, 45, 1, C: “Ora, nada (nilhil) significa nenhum ente (nullum ens).” (Os parênteses são nossos). E o non ente é, por seu lado, o que non habens esse. Por isso é que diz o Aquinate: Idem. Ibidem: “Assim, se se considera a emanação de todo ente (emanatio totius entis universalis) a partir do primeiro princípio, é impossível que algum ente seja pressuposto (aliquod ens praesupponatur) a esta emanação (emanationi).” (Os parênteses são nossos).
Doravante, fica assim deveras salvaguardado em Tomás, o abismo ontológico que separa a natureza divina de toda a natureza criada: Idem. Ibidem: “(...) assim também a criação (creatio), que é a emanação de todo ser (emanatio totius esse), é a partir do não ente (ex non ente) que é o nada (quod est nihil).” (Os parênteses são nossos). |