Após perquirirmos quais sejam as vias pelas quais conhecemos a Deus, chegou a hora de minudentemente as aplicarmos, a fim de que possamos, então, conhecer algo das perfeições divinas. Ora, no estudo das perfeições divinas, deve-se dar prioridade aos atributos da vida, da inteligência e da vontade, porque são estas as perfeições mais eminentes que podemos encontrar na criatura mais perfeita que nos é acessível, a saber, o homem.
Poderão objetar alguns que esta nossa abordagem seja antropomórfica. No entanto, a objeção encerra equívocos. Antes de tudo, é preciso se reconhecer, conforme já fora pré-estabelecido que, no que toca ao conhecimento de Deus, a única via que nos é acessível é justamente a que parte dos seus efeitos. Ora, tendo sido isto posto de antemão, é claro que lograremos maior êxito na investigação dos atributos divinos, se partimos do homem antes que se partíssemos da pedra, por exemplo.
Ademais, partir dos efeitos e atribuir a Deus as perfeições que encontramos nas criaturas, não nos resigna a construir a respeito de Deus uma imagem que o faça semelhante à sua criatura. Ao contrário, sabemos previamente, que as perfeições encontradas nas criaturas e atribuídas a Deus, preexistem em Deus de um modo totalmente outro do qual existem nas criaturas, qual seja, de uma forma infinitamente mais eminente, que nos é, aliás, desconhecida. Logo, não podemos transferir para Deus os conceitos que formamos destas perfeições tal qual as achamos nas criaturas. |